Pessoas com preferências políticas diferentes não podem ser vistas como inimigas, afirma psiquiatra
O ministro da Justiça, Anderson Torres, se manifestou ontem (11) sobre o assassinato do tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT) em Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda, cometido por um apoiador do presidente Jair Bolsonaro.
Torres prestou solidariedade aos familiares e defendeu o respeito à vida e às opiniões individuais. O ataque ocorreu durante a festa de aniversário de 50 anos de Arruda, no domingo (10). Ele foi alvo de disparos feitos pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho. Na troca de tiros, Guaranho também foi ferido. Ele foi internado em estado grave, mas estável.
A festa foi realizada em um salão de uma associação da cidade e o tema da celebração era o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o que move um extremismo destes, a ponto de matar outra pessoa por uma diferença política?
Falando sobre o assunto na Uirapuru, o psiquiatra Dr. Carlos Hecktheuer fez uma analogia aos torcedores de futebol que, no caso do Rio Grande do Sul, são divididos na maioria entre gremistas e colorados.
Conforme Hecktheuer, o torcedor fanático não gosta de futebol e do esporte em si, apenas admira seu próprio time, já o resto é ruim. Segundo o psiquiatra, o mesmo vem ocorrendo na política.
Isso também é uma tendência que acontece em quase todas as áreas, onde as pessoas tendem a dividir tudo entre bem e mal: o que gosto é bom e o outro é ruim. Segundo Hecktheuer, quando isso ocorre, as pessoas acabam vivendo em um bipartidarismo e bipolaridade, ou seja, tudo deve ter apenas dois lados: branco ou escuro, bonito ou feio, certo e errado, amigo e inimigo.
Quem faz isso, segundo o psiquiatra, não está disposto a aceitar diversidades e diferenças, como também não consegue ver defeitos no que gosta ou torce. O psiquiatra declara que uma pessoa assim está gravemente conflitada no mundo atual, seja no Brasil ou resto do planeta. E, quando ela chega neste ponto, fica muito conflitiva e gatilhos podem fazer com que a pessoa acabe entrando em surto.
Conforme Hecktheuer, esse tipo de pessoa não gosta do bem em geral, mas apenas de suas ideias. Quando essas ideias não são aceitas ou são questionadas, ela acaba se sentindo ameaçada. O psiquiatra declara que alguém assim não se preocupa com a situação política do país, apenas com seu político ou partido favorito.
Hecktheuer lembra que reconhecer a vitória dos outros é sinal de grandeza e é isso que a população deve fazer, não ir para o lado da mesquinharia de se sentir na obrigação de eliminar os que pensam diferente.
O psiquiatra declara que a população em geral deve se perguntar até onde vale a pena ir com uma briga entre dois lados, que inicia no nosso interior e vai para o mundo externo, em forma de ódio descarregado nos outros. Isso porque todos podem ter preferências diferentes, tanto políticas, quanto religiosas e futebolísticas, mas isso não significa que são inimigos.
Hecktheuer lembra que todos formamos a raça humana, com diferenças e escolhas, por isso é preciso querer sempre o bem do próximo e não pensar de forma egoísta. Ele ressalta que todos temos o direito de expressar nossas preferências e isso é o que significa democracia.