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Comportamento

Celebrar o presente: especialistas refletem sobre o Natal, saúde mental e o valor das conexões reais

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Em um ano marcado pelo cansaço generalizado e por discussões urgentes sobre saúde mental, o programa Sem Segredo reuniu a psicóloga Marisa Kuhn, a nutricionista Ângela Trentin e o jornalista e escritor Felipe Daroit para uma conversa franca sobre os sentimentos, desafios e significados das festas de fim de ano. A discussão revelou que, mais do que uma data fixa no calendário, o Natal funciona como um marco temporal emocional. Marisa Kuhn destacou como a data evolui com as fases da vida: da alegria despreocupada da infância, centrada em presentes e reuniões familiares, para uma perspectiva adulta que envolve ciclos, saudade e reflexão. “O Natal mostra as diferentes fases da vida. Hoje, vou passar o Natal e a avó sou eu”, observou, lembrando que a data pode reviver memórias boas e ruins, gerando uma melancolia que é parte natural do ciclo vital.

A psicóloga também contrastou a sua experiência com a de sua mãe, para quem a preparação era um período “ansiógeno”, de muita pressão pela perfeição. Esse ponto serviu de gancho para uma crítica maior à correria contemporânea que transforma o fim de ano em mais uma etapa de estresse, em vez de um momento de pausa. Felipe Daroit trouxe uma perspectiva cética, moldada por anos trabalhando em plantões de rádio durante as festas. Para ele, a data nem sempre foi um marco de celebração, mas sim de trabalho. Ele estendeu a reflexão para a sociedade atual, que chega a dezembro “esgotada” e muitas vezes usa a euforia das compras e da bebida como anestesia, sem verdadeiramente parar para refletir sobre o ano que termina e o que começa.

O paradoxo digital: conexão que desconecta

Um dos temas centrais foi o impacto da tecnologia e das redes sociais nas relações e no bem-estar. Daroit foi enfático: as notificações constantes e a busca por validação online nos mantêm em estado de alerta permanente, contribuindo para a epidemia de ansiedade e depressão. “As redes sociais são praticamente um mundo paralelo”, alertou, destacando o perigo das comparações baseadas em fotos de viagens e corpos “perfeitos”, que raramente refletem a realidade. Ele defendeu um “detox digital” urgente, especialmente nas festas. “A nossa essência é do contato com a terra, é do contato com as pessoas, é o olho no olho”, afirmou. Marisa Kuhn concordou, acrescentando que a busca por imagens “do belo” nas redes mascara valores essenciais e nos afasta de memórias sensoriais mais profundas e significativas.

Comida, prazer e cuidado: o equilíbrio à mesa

Ângela Trentin abordou o papel central da comida nas celebrações, reconhecendo-o como um “ato de amor” e de socialização. No entanto, alertou para os exageros incentivados por estratégias erradas, como ficar o dia inteiro sem comer para “compensar” na ceia. “O ser humano com fome é um ser humano burro. Perdemos a racionalidade e exageramos muito mais”, explicou. Ela deu dicas valiosas: manter a alimentação normal durante o dia, mastigar com calma, aproveitar os sabores e, principalmente, não comentar sobre o corpo ou o prato alheio. “Se é para comentar algo positivo, comenta. Agora, se é negativo, fica quietinho”, orientou, lembrando que nunca sabemos pelo que a outra pessoa está passando. Para o pós-festa, a recomendação é calma e equilíbrio: voltar à rotina alimentar sem radicalismos, priorizar alimentos naturais e, acima de tudo, hidratar-se. “A água é o nosso detox natural”, ressaltou.

Reflexão, presença e sentido

Os especialistas convergiram na ideia de que este é um momento para priorizar a presença sobre a pressão. Marisa Kuhn desaconselhou esperar a virada do ano para iniciar mudanças. “Se eu quero fazer algo, eu começo hoje. Não precisa esperar virar o ano”, afirmou, criticando a “sabotagem” dos prazos arbitrários. Felipe Daroit, apesar de seu ceticismo, fez um apelo emocionante pela busca de sentido, contando a história de uma tia que enfrentou a morte com serenidade graças à sua fé. “Como é importante na vida você acreditar em alguma coisa. […] Porque aí a tua vida vai ter um pouco mais de sentido”.

Ao final, a psicóloga Marisa Kuhn resumiu o espírito que deveria guiar a data, citando um trecho de música: “a felicidade está no caminho”. O convite, unânime, é para que se aproveite o Natal e o Réveillon não como uma corrida por felicidade instantânea ou ostentação digital, mas como uma oportunidade genuína de desacelerar, conectar-se com quem se ama (olho no olho) e resgatar as memórias sensoriais e emocionais que dão verdadeiro significado à existência. Afinal, como lembrou um ouvinte: “o ano tem 365 dias. Por que correr tudo em 10 ou 12 dias?”.