Substâncias químicas nas águas podem alterar percepção dos peixes
Um estudo inovador desenvolvido pela UPF abre caminho para descobertas importantes nos processos de produção animal e no comportamento humano.
Com o uso do zebrafish, ou peixe-zebra, pesquisadores estão desenvolvendo um trabalho que mostra que, quando expostos a uma certa quantidade de substâncias psicoativas, os peixes não percebem o perigo representado pela presença de um predador, tampouco conseguem comunicar essa situação de risco aos demais peixes.
Há alguns anos, a UPF, por meio do Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação, vem estudando os efeitos dos resíduos de agroquímicos nas águas e seu impacto sobre os peixes.
As pesquisas foram realizadas primeiramente com jundiás e mais recentemente com o zebrafish, muito utilizado em vários países por ter homologia genética, ou seja, grande semelhança genética com os humanos, possibilitando trabalhos científicos em diversas áreas.
Precursor dos estudos, o pesquisador Leonardo José Gil Barcellos, que atualmente ocupa o cargo de vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação na Instituição, ressalta que os projetos do Laboratório de Fisiologia de Peixes se concentram em três linhas básicas de investigação.
“A primeira diz respeito à fisiologia e endocrinologia do estresse, inicialmente com enfoque nos prejuízos causados à produção de peixes e, atualmente, nos impactos de tóxicos e resíduos de substâncias psicoativas sobre o estresse. A segunda linha de pesquisa aborda a toxicologia em peixes, e a terceira linha estuda os sistemas de produção de peixes nativos com ênfase em policultivos e sistemas de recirculação de água”, explica.
No contexto dos estudos de Barcellos, outros pesquisadores foram sendo agregados. É o caso da professora Ana Cristina Giacomini, que aborda em seu trabalho de doutorado a influência de psicofármacos em contato com a água.
Segundo ela, hoje se sabe que em vários países existem grandes quantidades de fármacos na água; dentre eles, antidepressivos, ansiolíticos, anticoncepcionais e antibióticos que são descartados pela forma ativa, ou seja, jogados no ambiente, ou eliminados pela urina.
Esse processo traz um impacto significativo na população aquática, alterando a capacidade de reprodução, causando resistência a bactérias e comprometendo o ecossistema aquático.
Ana Cristina atua com um protocolo de pesquisa que avalia como o peixe se comporta diante do predador, pois, de acordo com ela, é preciso buscar o equilíbrio entre as espécies.
“Agora, estamos pesquisando os fármacos fluoxetina e diazepam. Primeiramente, testamos como o zebrafish responde ao estresse. Observamos se, diante de uma situação de estresse, ele consegue encarar e buscar sobrevivência, com e sem o uso do fármaco, e em diferentes concentrações (ambiental – intermediária e terapêutica).Agora, estamos na etapa de colocar o peixe em contato com o predador”, explica.
Pesquisa de base e reconhecimento científico O zebrafish é utilizado em pesquisas como modelo para estudos sobre Alzheimer, autismo, depressão, ansiedade e distúrbios de comportamento no Brasil e em outras partes do mundo.
O interesse da pesquisa desenvolvida na UPF é estudar mecanismos para formar um conceito sobre o que está acontecendo no eixo hipotálamo-hipófise e adrenal, que regula o hormônio do estresse, e qual a interferência desses medicamentos aos quais os animais podem estar submetidos, para futuramente apresentar elementos para a pesquisa aplicada em seres humanos.
Desde 2001, Barcellos conseguiu disseminar seus estudos em cerca de 60 artigos em revistas internacionais como Plos One, Physiology & Behavior, Hormones & Behavior, Behavioral Processes, General and Comparative Endocrinology, Stress, Brain Research, Neuroscience Letters, Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, Aquaculture, Fish Physiology and Biochemistry, Chemosphere, Journal of Fish Biology, Comparative Biochemistry and Physiology e Environmental Toxicology and Pharmacology, dentre outras. Esses artigos, conjuntamente, possuem mais de 650 citações, conferindo índice H = 16 ao pesquisador.
A UPF conta com o apoio de pesquisadores da Unochapecó, UFSM e da Unesp de Botucatu neste projeto. Acadêmicos do Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação da UPF e de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria também integram os estudos.