Dia Mundial da Liberdade de Imprensa: “A ditadura nos marcou com medo e silêncio”, relembra jornalista Ivaldino Tasca
No dia 3 de maio, quando se celebra o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o jornalista Ivaldino Tasca compartilha um testemunho contundente sobre os anos de repressão vividos durante a ditadura militar no Brasil. Expulso da universidade, preso por participação em movimentos estudantis e constantemente vigiado pelo regime, Tasca relembra com lucidez e emoção os momentos mais duros de sua trajetória pessoal e profissional — e alerta para os riscos de retrocessos democráticos ainda hoje.
— O que mais marcou foi o medo e a covardia. O medo das pessoas e a covardia de quem tinha poder e o usava para perseguir — diz o jornalista, que começou sua militância política como estudante de Direito e Filosofia e se tornou um nome influente na imprensa regional.
Expulso da universidade sem justificativa oficial por envolvimento no Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) , Tasca viu sua vida acadêmica ser interrompida. Foi considerado “subversivo” por lutar contra o aumento de anuidades e por atuar no movimento estudantil.
— Participar da UNE era visto como uma ameaça. E o mais difícil é que a repressão não era só institucional: as pessoas tinham medo até de conversar com a gente. Teve um colega torturado, teve gente que fugiu da cidade sem dizer para onde ia — relembra.
Além da repressão como estudante, ele também enfrentou censura enquanto jornalista. Nos anos 1970, já atuando na imprensa, conta que era comum militares entrarem nas redações para orientar o que poderia — ou não — ser publicado.
— Muitas vezes um militar fardado chegava à redação, falava com o diretor e, ao sair, ele me dizia: “Sobre esse assunto, só vale o que saiu na Voz do Brasil”. Isso era rotineiro — relata Tasca.
Uma de suas colunas mais marcantes foi escrita após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, morto nos porões do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) em São Paulo
— Eu escrevi que “haviam suicidado o Herzog”. Foi uma maneira de denunciar sem ser preso, mas mesmo assim aquilo incomodou muito os militares aqui de Passo Fundo — recorda.
Outro episódio marcante foi a campanha em defesa da candidatura do padre Elydo Alcides Guareschi à reitoria da Universidade de Passo Fundo (UPF), na década de 1970. Tasca publicou a coluna “Caça às Bruxas: a abertura não chegou à UPF”, denunciando a tentativa de intimidação por parte de setores conservadores. A publicação gerou grande repercussão e, segundo ele, contribuiu para a eleição do padre.
Tasca só conseguiu obter o registro profissional de jornalista após a redemocratização. Enquanto isso, seus textos eram monitorados e arquivados por órgãos como o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e o Terceiro Exército.
— Eu recebi há alguns anos cópias de colunas minhas que estavam guardadas em arquivos militares. Textos que eu nem lembrava mais, vistos como ameaça à ditadura.
Ao refletir sobre o Brasil atual, Ivaldino Tasca demonstra preocupação com os ecos autoritários que ainda persistem. Para ele, o episódio de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, revela a necessidade de não se apagar o passado.
— Lá nos anos 80, quando veio a anistia, achei que era melhor esquecer tudo e olhar para frente. Hoje vejo que foi um erro. Esquecer permitiu que o autoritarismo ressurgisse. Temos que ir às últimas consequências para garantir a democracia — conclui.