A fé vai além da religião e a crença está ligada à esperança no outro e ao enfrentamento da finitude
O programa “Sem Segredo” véspera de Páscoa debateu sobre a fé e suas manifestações e desafios na sociedade contemporânea. Os convidados foram o professor de filosofia Tatiel Zart e a psicóloga Eliana Bortolon, que, sob mediação do apresentador, compartilharam visões pessoais e técnicas sobre o tema. Questionado sobre como descreveria sua própria fé, Tatiel Zart surpreendeu ao afastar a resposta do campo metafísico tradicional. “A minha fé são os meus alunos”, afirmou o professor, explicando que sua realização pessoal está ligada ao crescimento daqueles que ensina. “Eu não casei, não tive filhos, não construí grandes patrimônios, mas a forma que eu me realizo é quando vejo um aluno conseguindo conquistar algum sonho, sabendo que eu fiz diferença na vida dele.”
Para ele, a fé se conecta com a presença e o amor incondicional. “Não é sobre merecer essa fé que eu tenho nos alunos, é sobre ser necessário para eu continuar fazendo o que eu faço”, completou. Ecoando o sentimento, a psicóloga Eliana Bortolon revelou onde deposita sua crença. “A minha fé está nas pessoas. Para a psicologia, a gente precisa acreditar nas pessoas e no que elas acreditam.” Ela destacou a importância de respeitar a individualidade da vivência, especialmente “em tempos de intolerância”, defendendo que cada pessoa pode e deve ter a sua escolha.
O que dizem a Filosofia e a Psicologia?
Tatiel Zart fez uma distinção crucial entre religião e fé. “A religião é uma instituição que vai ser um grupo de crenças, comportamentos e experiência. A fé é algo que não necessariamente precisa ter algum contato com o divino”, explicou, citando o budismo como exemplo. Ao longo da história, a visão sobre a fé variou: enquanto Kant falava da necessidade de aceitar algo maior que a razão, Nietzsche via a religiosidade como uma forma de autoengano. O professor resgatou a metáfora do filósofo dinamarquês Kierkegaard para sintetizar o poder transformador da crença: “Talvez a fé não mova montanhas, mas ela vai mudar o jeito que a gente olha para essa montanha e enfrenta ela”.
Pela perspectiva da Psicologia, Eliana Bortolon explicou que a fé está intrinsecamente ligada à consciência da finitude humana. “É muito difícil para nós seres humanos acreditarmos que a gente acaba. A nossa construção, a nossa escolha por qual fé nós vamos ter, tem muito que ver com como a gente lida com esse sentimento de finitude”, disse. Ela revelou que, por muito tempo, a psicologia teve dificuldade em abordar o tema, mas que atualmente a dimensão espiritual é considerada parte constitutiva da subjetividade. “A psicologia conseguiu admitir que a espiritualidade compõe a subjetividade”, celebrou.
Fé e razão: um falso conflito
Um dos momentos altos do debate foi quando o apresentador perguntou se a fé é contrária à razão. Para Tatiel Zart, as duas coisas sempre coexistiram. “Se a gente for parar para pensar no surgimento da filosofia, os gregos eram politeístas. Durante a Escolástica, a igreja sempre foi aberta à discussão com a ciência”, lembrou. Ele argumentou que não há ganho em tentar impor uma visão de mundo sobre a outra. “Não é nenhum ganho para a filosofia ou para a psicologia tirar do indivíduo aquilo que constitui quem ele é.”
Eliana complementou que o trabalho do psicólogo não é duvidar da fé do paciente, mas entender o lugar que ela ocupa. “Ter fé não significa que você não possa questionar. A gente precisa sempre entender a serviço de quê essa fé está dentro da história daquela pessoa”, afirmou.
O perigo da intolerância e a importância do acolhimento
Os convidados concordaram que o grande desafio atual é evitar que a fé pessoal se torne uma ferramenta de opressão. “Por que incomoda tanto a religiosidade dos outros?”, perguntou o apresentador. Para Eliana, a intolerância nasce da própria insegurança. “Se eu participo de uma religião para controlar um impulso, eu vou ser muito intolerante porque o outro denuncia aquilo que estou tentando reprimir.” Tatiel Zart concluiu que, no fundo, a conversa sobre fé é, na verdade, uma conversa sobre humanidade. “Quando as pessoas trazem relatos vinculados à fé, os pedidos não eram sobre a vida delas, mas sobre um familiar. É eu tirar de mim a centralidade da minha existência e colocar a existência do outro como algo fundamental”, refletiu. “A gente está falando sobre a nossa relação humana, sobre o quanto a nossa existência só faz sentido se eu ainda tiver as outras pessoas para compartilhar as coisas que eu acredito.”