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Polícia

Violência na Terra Indígena de Ventarra, em Erebango, é motivada pela disputa do cacicado

Públicado em Por RD Uirapuru / Mateus Pirolli

A Terra Indígena Ventarra, localizada em Erebango, no norte do Rio Grande do Sul, vive um período de tensão e violência após a destituição da antiga liderança e a eleição de um novo cacique. Desde a mudança, a comunidade Kaingang relata ataques armados, destruição de moradias e um clima de medo e impunidade dentro da aldeia.

Segundo documentos apresentados pela própria comunidade — incluindo um abaixo-assinado e a ata de eleição —, cerca de 90% dos indígenas apoiaram a destituição da ex-cacica Toguila e a escolha de Sidnei da Silva como novo cacique. O processo, realizado em assembleia aberta e por consenso popular, foi comunicado oficialmente à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ao Ministério Público Federal, ao Ministério dos Povos Indígenas e à Polícia Federal. O objetivo, segundo os Kaingang, é garantir o reconhecimento da nova liderança e o respeito à autonomia da aldeia, conforme previsto na Constituição Federal e na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Ataques e escalada de violência

Desde a eleição, a comunidade afirma ser alvo de retaliações promovidas por apoiadores da antiga gestão. O primeiro ataque ocorreu em 15 de setembro de 2025, quando um grupo armado invadiu a aldeia, resultando na morte do indígena Luiz Adriano da Silva Domingues, além de casas saqueadas e famílias expulsas de suas residências.

Nenhum dos responsáveis foi preso até o momento. “As famílias estão com medo, desabrigadas e pedem apenas justiça e proteção”, disse um dos moradores à reportagem.

A violência voltou a se repetir em 13 de outubro de 2025, quando um novo ataque a tiros atingiu o acampamento onde estavam reunidas famílias apoiadoras do novo cacique. De acordo com relatos, o local foi alvejado por disparos de armas de grosso calibre por volta das 19h, atingindo áreas ocupadas por mulheres, crianças, idosos e gestantes. “Foi um verdadeiro cenário de guerra e terror”, descreveu um morador. Estima-se que mais de 120 pessoas estavam na região durante o atentado.

Omissão das autoridades e apelos por investigação

Apesar das denúncias, a comunidade afirma não ter recebido respostas efetivas das autoridades locais, estaduais ou federais. “Esperamos que o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, a Funai e o Conselho dos Povos Indígenas do RS se manifestem sobre esse cenário de caos e medo”, afirmou um representante local.

Há ainda denúncias de que um indivíduo ligado à antiga liderança, atualmente detido no Presídio Regional de Passo Fundo, estaria coordenando ações criminosas de dentro da prisão. As lideranças pedem investigação sobre o suposto envolvimento de grupos armados e possíveis financiadores externos.

Povo pede paz e reconhecimento

A comunidade Kaingang reforça que a eleição de Sidnei da Silva foi legítima, pacífica e democrática. As lideranças pedem o reconhecimento formal do novo cacique, a proteção das famílias ameaçadas e a responsabilização dos envolvidos nos ataques.

“Queremos apenas viver em paz, ver nossas famílias seguras e que a decisão do nosso povo seja respeitada. A democracia dentro da aldeia também é um direito indígena”, declarou uma das lideranças da Terra Indígena Ventarra.

Enquanto aguardam uma resposta das autoridades, os moradores seguem vivendo em clima de medo e incerteza, cercados por ameaças e pela sensação de abandono institucional.