Vídeo: Na Uirapuru, Monja Coen diz: ” é preciso reconhecer que há pontos de vista diferentes e não precisamos convencer o outro sobre o nosso”
A Monja Coen Roshi, uma das mais proeminentes vozes do Zen-Budismo no Brasil, destacada por sua capacidade de conectar a espiritualidade oriental com os desafios do mundo contemporâneo, esteve em Passo Fundo (RS) para uma série de compromissos.
Na terça-feira (07), a monja ministrou uma palestra na Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF), em evento promovido pela Unimed. Na manhã desta quarta-feira (08), ela concedeu entrevista ao programa “Repórter do Povo”, da Rádio Uirapuru, onde abordou temas cruciais como a busca pelo equilíbrio emocional, a importância da convivência social e as rápidas transformações da sociedade atual.
Durante a conversa, Coen explicou que sua trajetória começa em São Paulo, onde nasceu e atuou como jornalista no Jornal da Tarde. Segundo ela, a vivência nas redações, em meio ao regime militar, despertou questionamentos sobre o sentido da vida e sobre formas de promover mudanças sociais sem recorrer à violência. O primeiro contato com o zen-budismo ocorreu a partir de uma pesquisa sobre sociedades alternativas na Califórnia. Mais tarde, ela decidiu aprofundar o aprendizado e viveu doze anos no Japão, onde estudou em um mosteiro feminino na cidade de Nagoya.
Ao falar sobre o papel das mulheres na tradição zen-budista, Coen afirmou que, em sua ordem religiosa, as monjas podem realizar todos os rituais exercidos pelos monges, o que representa uma prática de igualdade dentro da instituição. Ela citou o exemplo de sua superiora, que se tornou a primeira mulher, em 800 anos de história do zen-budismo japonês, a lecionar em um mosteiro masculino.
Questionada sobre o tema da palestra em Passo Fundo, “Calma e equilíbrio diante do caos”, Coen observou que a humanidade vive um período de intensas transformações tecnológicas e sociais, o que exige maior capacidade de equilíbrio emocional. Ela defendeu que o ser humano precisa reconhecer a impermanência das situações e aprender a retornar ao próprio eixo, mesmo diante das dificuldades.
A monja destacou que práticas simples, como a meditação e a respiração consciente, ajudam a lidar com o estresse cotidiano. Segundo ela, ao acordar, é importante reservar alguns minutos para observar a respiração e o estado mental antes de iniciar o dia. Coen acrescentou que atitudes gentis e o uso de palavras respeitosas contribuem para um ambiente social mais pacífico.
Ao tratar do conceito de karma, Coen afirmou que ele pode ser transformado por meio de ações benéficas. Ela explicou que, ao praticar boas atitudes e evitar sentimentos de rancor, é possível modificar influências negativas herdadas de gerações anteriores.
Durante a entrevista, a monja também comentou o impacto das redes sociais e a ideia de “felicidade tóxica”. Segundo ela, a comparação constante com a imagem de felicidade exibida na internet gera sofrimento e sensação de inadequação. Coen defendeu que cada pessoa deve reconhecer o próprio caminho e evitar comparações.
Ela diferenciou o budismo do espiritismo, esclarecendo que o zen-budismo não se baseia em uma alma eterna que transmigra, mas em um ciclo de causas e condições que se renovam a cada existência. Para ela, o objetivo do praticante é alcançar o despertar e a plenitude nesta vida.
Coen reforçou que ser uma pessoa zen não significa estar sempre alegre, mas saber reconhecer e retornar ao próprio eixo emocional. De acordo com ela, o zen é a prática de ser quem se é, e não quem se gostaria de ser.
Ao final, a monja comentou sobre a importância de manter o equilíbrio em períodos de polarização política. Disse que é necessário compreender e respeitar diferentes pontos de vista, evitando conflitos e estimulando o diálogo. Para ela, a humanidade vive um momento de aceleração da informação e de adoecimento coletivo, o que torna ainda mais essencial o cultivo da serenidade e da saúde emocional. Frisou que há pontos de vista diferentes dos nossos, mas eles existem. Não preciso querer convencer o outro do meu ponto de vista, mas sim mantermos a mente aberta para a possibilidade de mudar o meu próprio pensamento e seguir pesquisando. Avaliou que as pessoas estão muito adoentadas e agora é preciso buscar equilíbrio em meio a bagunça. A informação deve levar formação e garantir que as pessoas tenham formação de opinião, tomando decisões com base naquilo que ouvem e aprendem e não no que acreditam simplesmente.
Assista a entrevista na íntegra:
https://www.youtube.com/watch?v=oyhvKwbeKGc&feature=youtu.be