Skip to content

Geral

Vício em jogos online: os riscos são equiparáveis às drogas

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

O programa “Sem Segredo” reuniu a advogada especialista em direito digital Gabriela Valduga, o psicólogo Pablo Canal Costa e a delegada de Polícia Carolina Goulart para discutir o crescente problema do vício em jogos de aposta online, como bets e o conhecido “Jogo do Tigrinho”. O conselho unânime dos três convidados é direto: não joguem. O psicólogo Pablo Canal Costa explicou que a ciência já classifica o vício em jogos de azar como um transtorno aditivo, nos mesmos moldes da dependência química. “Os processos e mecanismos são os mesmos, os efeitos no cérebro, com a liberação de dopamina, são os mesmos, e o poder de vício é o mesmo”, afirmou. O principal sinal do transtorno é a perda de controle, quando a pessoa não consegue mais parar de apostar. Pablo destacou que existe tratamento, mas é um processo longo. Uma das estratégias utilizadas é a filosofia do “hoje não”, evitando a primeira aposta. O especialista também alertou para um dado alarmante: “os riscos para tentativas de suicídio na população que aposta é de 15 a 20 vezes mais do que a população comum”.

Bets legais X Jogos ilegais: entenda a diferença

A advogada Gabriela Valduga esclareceu o cenário jurídico, que passou por uma mudança significativa. Até 2018, havia proibição absoluta. Em 2023, uma nova lei permitiu a operação de bets de cota fixa, desde que as empresas paguem uma outorga de R$ 30 milhões, tenham sede física no Brasil e cumpram obrigações fiscais. No entanto, a especialista alerta para o universo paralelo de jogos como o “Tigrinho”, “Foguetinho” e “Leãozinho”. “Eles ficam geralmente em Curaçau ou em outras ilhas que são paraísos fiscais. Quando você perde, a gente não tem como ir atrás, não tem como achar um dono, não tem como entrar com um processo”, explicou Gabriela. Ela ressaltou que essas plataformas são programadas para que a empresa sempre lucre e o apostador perca, e que, mesmo em caso de grandes ganhos, a chance de receber o pagamento é mínima. A delegada Carolina Goulart complementou que o apostador nunca comete crime, sendo sempre tratado como vítima. Os crimes (estelionato e lavagem de dinheiro) são cometidos por quem explora os jogos ilegais e por influenciadores que fazem propaganda enganosa. A polícia atua no combate às bets ilegais, que já resultaram na prisão de influenciadores digitais e MCs.

Círculo vicioso e a “ilusão do controle”

Os especialistas detalharam os mecanismos psicológicos que prendem o apostador. Pablo explicou que o cérebro esconde as perdas e só lembra das raras vitórias, gerando uma falsa expectativa. Gabriela acrescentou que os jogos são projetados com cores, sons e “ganhos de consolação” (a sensação do “quase ganhei”) para manter o usuário preso. “A pessoa acredita que está no controle das suas emoções e finanças, até o momento em que começa a perder. Aí, a ilusão do controle vai por água abaixo”, alertou Pablo. Aos poucos, apostas pequenas de R$ 5 ou R$ 10 não são percebidas, mas se acumulam em grandes perdas ao final do mês.

Endividamento e desvio de dinheiro

O impacto financeiro é brutal. Gabriela Valduga citou uma pesquisa que indica que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, e estima-se que cada pessoa que jogou perdeu, em média, R$ 104 mil reais. A delegada Carolina Goulart trouxe exemplos práticos da sua experiência policial. Ela relatou casos de pessoas sem antecedentes criminais que cometeram furtos e desviaram dinheiro de empresas ou de familiares para sustentar o vício. Além disso, a delegada confirmou o aumento da agiotagem vinculada às apostas, com cobranças violentas, e já presenciou casos de suicídio motivados pelo endividamento e pela vergonha causados pelos jogos.

Onde buscar ajuda e como se proteger

O psicólogo Pablo Canal Costa informou que a rede pública de saúde oferece tratamento. Em Passo Fundo, os viciados podem buscar os psicólogos nas Unidades Básicas de Saúde ou, em casos graves, o serviço especializado do CAPS-AD. Ele também recomendou aplicativos de bloqueio, como “BetLocker”, e sugeriu que, em casos extremos, o familiar retire o celular do apostador. Gabriela Valduga deu uma dica prática para evitar o bombardeio de propagandas: bloquear palavras-chave como “BET”, “Tigrinho”, “Tiger” e “aposta” nas configurações das redes sociais.

Recados dos especialistas

Pablo Canal Costa (Psicólogo): “O único caminho é a educação. A grande questão não é a tecnologia em si, são as empresas predatórias que estão por trás.”

Gabriela Valduga (Advogada): “Não recomendo que joguem. Não é nenhuma forma de investimento. É muito fácil perder o dinheiro.”

Carolina Goulart (Delegada): “Não jogue. Não tem ganho fácil, não existe almoço grátis. Pega o teu dinheiro e usa para uma coisa saudável. A polícia vai tentar encontrar uma solução, mas a hora é de a população se prevenir.”