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Educação

Um ano sem celular na escola: Ainda é cedo para avaliar desempenho

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Um ano após a entrada em vigor da legislação que proíbe o uso de celulares em sala de aula e nos intervalos, escolas de Passo Fundo começam a traçar um primeiro balanço da medida. O objetivo principal da lei é melhorar a atenção dos alunos e, consequentemente, o desempenho escolar. Para discutir os resultados e os desafios, o programa Sem Segredo, da Rádio Uirapuru, reuniu especialistas e gestores educacionais na manhã desta sexta-feira.

Participaram do debate o secretário municipal da Educação, Adriano Teixeira; a professora Rosimar, doutora em educação; o vice-diretor do Colégio Notre Dame, Vanderlan Lima; e, por telefone, a diretora da Escola Estadual Wolmar Salton, Elisena Maidana. Se por um lado a proibição é vista como um sucesso no aumento da interação social e na redução de distrações, por outro, o impacto direto na aprendizagem ainda é uma incógnita que exigirá paciência e, principalmente, o engajamento das famílias.

Recreio mais barulhento e alunos mais presentes

O consenso entre os educadores é que a mudança mais visível aconteceu nos corredores e pátios. O vice-diretor do Notre Dame, Vanderlan Lima, celebrou a transformação. “Percebemos um recreio mais barulhento, com muito mais interação. Os estudantes voltaram a jogar xadrez, damas, e as mesas da biblioteca estão sempre lotadas, com vários alunos acompanhando as partidas. A escola voltou a ser um espaço de convivência viva”, relatou.

A percepção é compartilhada na rede pública. Adriano Teixeira, secretário municipal da Educação, confirmou o fenômeno. “É só passar no intervalo de qualquer escola para ver que ela está mais viva e mais barulhenta. Voltamos a ter muito mais alunos suados voltando do recreio do que tínhamos antes. O foco agora é na interação, no contraditório, no desenvolvimento que só o contato humano proporciona”, afirmou.

Na Escola Estadual Wolmar Salton, que atende 120 alunos em tempo integral no bairro Bom Jesus, a adaptação também foi positiva. A diretora Elisena Maidana contou que, após um período inicial de estranhamento, os alunos encontraram novas formas de ocupar o tempo. “Eles tiveram que buscar outras atividades, como esportes e brincadeiras no pátio. Na sala de aula, a atenção melhorou muito. O celular distrai até os adultos, imagina as crianças”, disse.

Aprendizagem: um salto que ainda não apareceu nas notas

Apesar do otimismo com o ambiente escolar, a expectativa de uma melhora imediata no desempenho acadêmico ainda não se concretizou. Adriano Teixeira explicou que os dados da rede municipal não mostram um “pico” de melhoria nas notas em 2025. “Saiu do padrão que já vinha sendo seguido. Não podemos dizer ainda que houve um impacto direto nas notas. O que vemos é um maior foco e presença dos alunos, mas a aprendizagem é um processo mais complexo.”

A professora Rosimar endossou a fala do secretário, destacando que o aprendizado é fruto de múltiplos fatores. “O impacto desta legislação na aprendizagem só deverá ser sentido em três ou quatro anos. É um ciclo que precisa ser cumprido, assim como vemos os efeitos da pandemia até hoje. Por enquanto, estamos plantando as sementes da atenção e da convivência.”

O desafio das famílias e o “cérebro podre”

Um dos pontos mais críticos levantados no debate foi a resistência ou a falta de apoio de parte das famílias. Vanderlan Lima citou uma pesquisa preliminar do Sinepe/RS que indica que, embora mais de 90% das instituições de ensino privado vejam a medida como favorável, o apoio dos pais cai para cerca de 58%. “Há uma resistência de quase metade das famílias. É um chamamento à responsabilidade. O uso consciente não se resolve só na escola. O que a criança faz em casa, madrugada adentro, impacta diretamente sua capacidade de aprender”, alertou o vice-diretor.

O professor Vanderlan também trouxe à tona um alerta da neurociência, citando estudos sobre os efeitos nocivos do uso excessivo de telas. “Há uma constatação científica de que o uso indiscriminado de redes sociais pode diminuir a massa cinzenta no córtex cerebral. É o chamado ‘brain rot’ (apodrecimento do cérebro). O estudante perde a capacidade de manter a atenção por longos períodos. Em países como a Coreia do Sul, isso já é tratado como um problema de saúde pública”, explicou.

Adriano Teixeira reforçou que a escola não pode nem “endeusar nem diabolizar” a tecnologia, mas sim ensinar a usá-la com maturidade. “O mais fácil foi feito: proibir. O mais difícil é tornar a escola tão atrativa quanto o celular e contar com a parceria das famílias para que, em casa, também haja limites. O aluno não pode ser apenas um consumidor passivo de informações, mas um criador, usando a tecnologia com ética e intencionalidade”, defendeu o secretário, citando exemplos como a produção de podcasts pelos próprios alunos como ferramenta pedagógica.

O recado final dos educadores foi único: a lei é um passo importante, mas é apenas o começo. “Acreditem na escola”, pediu a professora Rosimar. “O diálogo é sempre o melhor caminho. A escola precisa ser cuidada e protegida, e isso passa, fundamentalmente, pelo apoio e pela confiança das famílias na educação.”