Sem tecnologia não há agronegócio
Um, em cada quatro produtos do agronegócio no mundo, é brasileiro. A tecnologia é um dos fatores que mais contribuiu para o aumento da produção, crescendo de 50,6%, em 1996, para 68%, dez anos depois. Os ganhos de produtividade também são significativos, pois, enquanto a produção de grãos cresceu 142%, nos últimos anos, o aumento da área cultivada ficou em 35%.
O agronegócio atualmente responde por 25% do Produto Interno Bruto – PIB nacional e gera 35 milhões de empregos. Não há dúvidas, de que a agricultura e a pecuária são a locomotiva da economia brasileira. O que se discute hoje são medidas que governo e produtores devem tomar para que esta locomotiva se mantenha na sua trajetória de avanço, sem solavancos que prejudique o setor.
Entre os dias 10 e 14 de março, o Rio Grande do Sul será, novamente, o palco de uma das maiores feiras de tecnologia do país e da América Latina, vinculadas ao setor primário. Acontecerá em Não Me Toque, a 15ª edição da EXPODIRETO. A Cooperativa Tritícola Alto Jacuí Ltda.- COTRIJAL é a principal promotora desta feira, a qual coloca pequenos, médios e grandes produtores rurais em contato com o que há de mais avançado, em termos de máquinas, implementos e insumos destinados a melhorar o desempenho da produção primária.
Aproveitando o momento em que está em pauta o debate sobre tecnologia e agronegócio, o Jornal do Troca Troca entrevistou, com exclusividade, o Secretário Nacional de Desenvolvimento e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, o engenheiro agrônomo gaúcho, Caio Tibério Dornelles da Rocha. Ele tem longa e eficiente folha de serviços prestados ao setor primário brasileiro, tendo ocupado diversos cargos nesta área, entre os quais, o de Secretário deAgricultura do Rio Grande do Sul e o de Presidente da EMATER gaúcha.
– Jornal do Troca Troca: O senhor acredita que o agronegócio brasileiro tem condições de crescer ainda mais?
– Caio Rocha: Todas as estatísticas e previsões apontam para isso. Nossas exportações, em 2013, cresceram 4,3% em relação ao ano anterior. Hoje, nossos produtos chegam a mais de 200 países. Temos terras disponíveis, mão de obra preparada e a melhor tecnologia tropical do mundo, o que nos permitirá fazer crescer a nossa produção em 40%, em 20 anos.
– JTT: As organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura- FAO, contam com isso, não é mesmo?
– Caio Rocha: Exatamente. O Brasil não é mais visto apenas como exportador de commodities. Nosso excedente alimenta o mundo. Temos um papel fundamental no combate à fome mundial. As previsões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE indicam que a população mundial crescerá em torno de 20% nas próximas duas décadas. Sem aprimorarmos nossa tecnologia no campo e, sem a transferência destas técnicas para outras nações, não conseguiremos dar conta desta demanda emergente.
– JTT: Mas há como produzir mais, sem degradar o solo, ou desmatar as florestas, por exemplo?
– Caio Rocha: O modelo extrativista de exploração da terra ficou no passado. Avançamos muito no cultivo sustentável e na recuperação de florestas e solos degradados. Podemos afirmar, sem medo, que, hoje, o Brasil é pioneiro nesta tecnologia, no mundo, entre os países de clima tropical. Vou citar alguns dados apenas para deixar a questão mais clara. A produção de grãos no Brasil cresceu 142%, no período de 1993/1994 a 2012/2013, o que representa um crescimento anual de 4,76%. Já o aumento da área plantada, no mesmo período, foi de 35,9%, uma média de 1,62% ao ano. Os números falam por si e, demonstram, claramente, a transferência e o uso de tecnologia que resultam em eficiência de produtividade no campo.
– JTT: Esse mérito é só dos produtores ou o governo colaborou para o aumento da produtividade?
– Caio Rocha: Precisamos ajudar os produtores nessa missão. O Governo acordou para isto, ainda na década de 70, quando foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA. Sem dúvida, foi um divisor de águas para a agricultura e pecuária nacionais. A EMBRAPA e todo o Sistema Nacional de Pesquisa vem trabalhando, sistematicamente, no desenvolvimento de variáveis compatíveis com segundas safras, assim como, na integração lavoura-pecuária, visando liberar áreas mal aproveitadas.
– JTT: O senhor poderia explicar melhor?
– Caio Rocha: O Brasil é um dos poucos países, talvez o único, que possui uma Política Nacional de Mudança de Clima, institucionalizada e regulamentada por lei. Existe também uma estrutura de governo já implantada para atender a essa política, que reúne diversos programas que visam a redução da emissão de gases, a mitigação e a adaptação às mudanças de clima.
Creio que o mais conhecido seja o Plano ABC que reúne seis práticas voltadas ao plantio sustentável e às questões que falamos antes. É o único plano setorial pronto e totalmente operante que o governo possui. E, estamos avançando a passos largos. No ano safra 2012/2013, de um total disponível de R$ 3,4 bilhões em linhas de financiamento, foram tomados cerca de R$ 2,8 bilhões, o que representou um aumento de 546% em relação à safra passada. Para a safra atual, 2013/2014, estão disponíveis cerca de R$ 4,5 bilhões em crédito. Isso demonstra que os produtores estão em busca de aumento de produtividade com sustentabilidade.
– JTT: Mas é só isso que o governo faz para apoiar o agronegócio nacional?
– Caio Rocha: Evidentemente que não. Estamos avançando em uma antiga reivindicação dos produtores rurais que é aumentar a cobertura do seguro rural. Atualmente, o seguro contempla mais de 10 milhões de hectares. No atual Plano Agrícola e Pecuário, 2013/2014, foram disponibilizados R$ 700 milhões, voltados principalmente para regiões e produtos prioritários. A intenção do MAPA é dar segurança e condições para que os nossos produtores continuem trabalhando com absoluta tranquilidade.
Também lançamos o INOVAGRO que, é um programa voltado à inovação tecnológica para a agricultura e pecuária, objetivando o aumento da produtividade, a adoção de boas práticas e a gestão da propriedade rural. Para este programa, estão disponíveis cerca de R$ 1 bilhão, com juros a 3,5% ao ano.
– JTT: Então, o setor rural não enfrenta problemas?
– Caio Rocha: Não, isso não é verdade. Temos clareza dos gargalos que impactam na produção rural e estamos empenhados em resolvê-los. O principal deles é a pouca capacidade de armazenagem que o Brasil possui. Enfrentamos sérios problemas de escoamento de safra em 2012, e, não queremos repeti-los. Por isso, em cinco anos serão destinados
R$ 25 bilhões para a construção de novos armazéns. Para as estruturas públicas, o montante será de R$ 500 milhões, entre a construção de novas e a modernização das já existentes.
Além disso, a falta de logística nos preocupa muito. É um problema crônico, que precisa ser enfrentado se quisermos que a economia continue crescendo e o chamado “custo Brasil” seja reduzido. É fundamental que os nossos portos sejam modernizados, além da criação de novos corredores de exportação para atender principalmente às demandas das Regiões Norte e Centro-Oeste.
– ITT: O governo ajuda mais os grandes ou os pequenos produtores?
– Caio Rocha: Na verdade, buscamos dar assistência a todos os produtores rurais brasileiros, independentemente de tamanho. O Ministério do Desenvolvimento Agrário -MDA tem sua atuação voltada ao agricultor familiar, coordenando o PRONAF e a assistência técnica para este segmento. Já o MAPA, por meio da EMBRAPA e de outras estruturas, apoia toda a cadeia do agronegócio.
Mas a realidade nos mostrou que esta divisão acabou por provocar um vácuo. O médio produtor estava sem assistência técnica e sem a atenção devida por parte do governo.
A boa nova é que, atento a isso, o governo federal aprovou no Congresso Nacional, no final do ano passado, a criação da ANATER – Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. Juntos, MDA e MAPA criarão políticas de assistência técnica voltadas ao médio produtor e aos agricultores familiares.
Como engenheiro agrônomo, minha origem é na assistência técnica e sei como isso é importante para o produtor, não importando o seu tamanho. Claro que os grandes produtores tem estrutura para buscar o apoio de profissionais. A agricultura familiar encontra abrigo nos programas do MDA e os médios acabaram por ficar à margem das políticas governamentais. A ANATER vai suprir essa lacuna fazendo com que a assistência técnica e a extensão rural cheguem a esse produtor, cujo perfil está sendo mapeado para conhecermos melhor as suas necessidades.
JTT: O senhor quer dizer que os médios produtores não tem direito a nada?
Caio Rocha: Hoje, os médios produtores podem obter crédito por meio do PRONAMP. É uma linha de crédito voltada exclusivamente para a este público. Este aporte de recursos vem crescendo, nos últimos 10 anos aumentou de R$ 1 bilhão para R$ 13,2 bilhões.
Além disso, por meio da ANATER, o médio produtor terá disponível R$ 100 milhões para assistência técnica. A meta para este ano é beneficiarmos cerca de 100 mil produtores. O Ministério da Agricultura, após 20 anos, volta a fazer assistência técnica.
JTT: No que, a tecnologia pode beneficiar o consumidor?
Caio Rocha: Darei um exemplo bastante simples. O MAPA firmou um Acordo de Cooperação com a Associação Brasileira de Supermercados- ABRAS, que visa rastrear e monitorar o uso de agrotóxicos em frutas e hortaliças comercializadas nos supermercados. É bastante simples e inovador ao mesmo tempo. O consumidor, por meio do celular, faz a leitura do código de barras contido nas embalagens dos produtos e fica sabendo quem produziu, onde foi plantado e o que foi usado no cultivo.
Acho este, o melhor exemplo de como as boas práticas chegam à mesa dos consumidores.
JTT: Para finalizar, o que o senhor diria sobre a EXPODIRETO da COTRIJAL?
Caio Rocha: É animador ver, todos os anos, experiências e projetos bem-sucedidos voltados à tecnologia no campo. A Expodireto cresce a cada ano, não só de tamanho, mas de importância também.
Temos nela, representada, a globalização do agronegócio, com 80 países presentes, trazendo e levando nossas tecnologias e experiências. Não perde para nenhuma feira internacional. Costumo dizer que, sem tecnologia não há agronegócio.
É um evento que também destaca a força do cooperativismo no Brasil. Nosso agronegócio não teria atingido os elevados níveis de eficiência sem a participação efetiva das cooperativas.
O mundo espera que o Brasil encontre alternativas cada vez mais sustentáveis de crescimento econômico e, na EXPODIRETO, podemos ter contato com o que há de mais avançado no Brasil e no mundo. Tenho muito orgulho, como gaúcho, de uma iniciativa deste porte acontecer no Rio Grande do Sul. Para os produtores, também é uma oportunidade única, de troca de experiências e de conhecimento. Fica aqui o meu convite, a todos, para conhecerem a EXPODIRETO COTRIJAL, em Não-Me-Toque. Até lá.