Sem Segredo: ouvintes acham que é melhor usar medicamentos sem eficácia comprovada do que não fazer nada contra coronavírus
A pandemia do novo coronavírus ainda não tem um medicamento eficaz de forma científica como arma segura, no entanto, o que está sendo usado por muitos médicos é a combinação de hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina como tratamento precoce à doença. A prática é polêmica, foi tema de diversas discussões mundiais e divide o país. Enquanto boa parte das pessoas defende o uso deste tratamento, dito pelo atual presidente Bolsonaro como eficaz, outra grande parcela, formada por médicos, estudiosos e população, enxerga a prática com cautela.
Este tratamento sem comprovação científica foi o tema do último programa Sem Segredo, apresentado no sábado pela manhã na Uirapuru.
Foram convidados para o debate lados opostos e mais uma vez o povo teve voz no programa para dizer o que pensa. Participaram a médica alergista e especialista em virologia, Maria Sônia Dal Bello; o médico infectologista, professor da UFSM e presidente da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia (SRGI), Alexandre Vargas Schwarzbold; a vice-diretora médica do HSVP, Cristine Pilatti; o pneumologista do Hospital de Clínicas, Gustavo Picolotto e a secretária Municipal de Saúde de Passo Fundo, Carla Beatrice Gonçalves, além do Dr. Juarez Dal Vesco, diretor do Hospital de Clínicas.
A médica especialista em virologia, Maria Sônia Dal Bello, iniciou o debate defendendo o uso do tratamento precoce com a hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. A médica disse que são medicamentos antigos muito conhecidos e usados. A hidroxicloroquina existe há mais de 80 anos, por exemplo.
Estes medicamentos, em sua avaliação profissional, não trazem nenhum prejuízo ao paciente. Ela ressaltou que o tratamento precoce, em qualquer doença, salva vidas, sendo isso que se procura agindo contra o coronavírus. Disse também que já é comprovado que o agravamento da situação se dá devido ao paciente ter contato com uma alta carga viral, sendo que a ivermectina, por exemplo, reduz esta carga. Desta forma, o tratamento precoce diminui a quantidade de vírus no organismo e favorece uma recuperação rápida e um caso leve, defendeu a médica.
Ouça a entrevista com a médica especialista em virologia, Maria Sônia Dal Bello:
O médico infectologista, professor da UFSM e presidente da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia (SRGI), Alexandre Vargas Schwarzbold, se disse cauteloso com o uso de medicamentos combinados. Declarou que não há uma prova de que foi o uso da hidroxicloroquina e ivermectina que contribuiu com a melhora de pacientes. A maioria dos casos não é grave e a pessoa pode passar pela doença apenas com um chá comum e medicamentos para os sintomas, por exemplo.
Pesquisas em laboratório que comprovam a eficácia dos medicamentos contra o coronavírus são bem diferentes das pesquisas com pessoas, afirmou o médico. Ele também explicou que em laboratório vários medicamentos mostraram eficácia contra o vírus HIV, mas na prática não há cura. No entanto, reiterou que um médico tem o discernimento do que quer prescrever e isso deve ser respeitado.
Ouça a entrevista com o médico infectologista Alexandre Vargas Schwarzbold:
A vice-diretora médica do HSVP, Cristine Pilatti, explicou que os protocolos de atendimento na instituição estão bem estabelecidos para os casos de problemas respiratórios e isso não muda de doença para doença. A conduta do HSVP é oferecer o tratamento com hidroxicloroquina e os demais medicamentos. Caso o paciente queira, as doses são ministradas.
Cristine explicou que é comum o uso de medicamentos para tratar doenças que não estão prescritas na bula, sendo depois descoberta sua eficácia. Questionada sobre como andam os resultados dos pacientes que usaram estes remédios, a médica disse que, para ela, a grosso modo, parecem apresentar melhor resultado do que aqueles que não usaram.
Ouça a entrevista com a vice-diretora médica do HSVP, Cristine Pilatti:
O pneumologista do Hospital de Clínicas, Gustavo Picolotto, disse que os pacientes de enfermaria tem evoluído muito menos para UTI e tido melhor resposta aos sintomas quando tratados no HC com hidroxicloroquina e azitromicina. Este é o protocolo seguido na instituição, desde que o paciente concorde. No entanto, muitos pacientes chegam ao hospital com mais de sete dias da doença, com grande inflamação e vão direto pra UTI. Com isso, ele defende que o tratamento seja precoce.
Ouça a entrevista com o pneumologista do Hospital de Clínicas, Gustavo Picolotto:
O médico e diretor do Hospital de Clínicas, Juarez Dal Vesco, disse que a medicina é feita de ciência e arte: a ciência é a evidência científica e a arte é a vivência médica. Nesta pandemia se tem poucas evidências científicas e então a vivência do médico ganha mais espaço. Neste ponto, entram dois atores: o profissional e o paciente. Ambos precisam trabalhar juntos, tomando as decisões juntos do uso destes medicamentos, conforme Dal Vesco.
Ouça a entrevista com o diretor do Hospital de Clínicas, médico Juarez Dalvesco:
Os ouvintes acompanharam todas as posições médicas e as manifestações foram unânimes. Para os ouvintes da Uirapuru, de fato ainda não há evidências cientificas de que esses remédios realmente funcionem, bem como seus riscos. No entanto, pior é ficar parado com o caso a própria sorte, sem nada fazer. Para os ouvintes, é melhor usar os medicamentos, desde que prescritos, do que não fazer nada, mesmo com eventuais riscos.
Ouça o que disse os ouvintes: