Programação da Consciência Negra destaca resistência e cultura afro-brasileira em Passo Fundo
Passo Fundo iniciou a Semana da Consciência Negra com ações voltadas ao resgate histórico e à visibilidade da população negra. O evento integra debates, manifestações culturais e a primeira edição da Feira Afro-Brasileira no município. A programação segue até o dia 20 de novembro, com atividades culturais, rodas de conversa e exposição organizada pela Coordenadoria de Igualdade Racial.
Em entrevista ao Fala Passo Fundo da Rádio Uirapuru, a coordenadora Mara Cavalheiro afirmou que a cidade ainda enfrenta um preconceito estrutural persistente e que os ataques racistas são a demanda mais frequente registrada pelo órgão. Ela defendeu que casos de ofensa racial sejam denunciados formalmente, com registro de boletim de ocorrência, como forma de romper práticas naturalizadas desde o período da escravidão. Mara reforçou também a necessidade de letramento racial e ressaltou as dificuldades em efetivar a aplicação da Lei 10.639, que torna obrigatória a abordagem da história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Ao comentar a programação da semana, Mara destacou o simbolismo do Chafariz da Mãe Preta, a homenagem a personalidades negras que marcaram a história local e a realização da Feira Afro-Brasileira, que reunirá empreendedores, gastronomia, arte e manifestações culturais. Segundo ela, o objetivo das atividades é ampliar o reconhecimento da população negra e envolver toda a comunidade, e não apenas os grupos diretamente atingidos pelo racismo. Mara também chamou atenção para a presença histórica de famílias negras tradicionais em Passo Fundo e a necessidade de que suas contribuições sejam reconhecidas.
O historiador Diovan Carvalho, presidente do Instituto Histórico de Passo Fundo, também esteve no programa de sábado e explicou que o fortalecimento da memória depende da preservação de acervos que registrem trajetórias coletivas e individuais. Ele lembrou que muitas histórias permanecem guardadas em arquivos pessoais e destacou que documentos, fotos e relatos podem ser digitalizados e incorporados à memória pública. Segundo Diovan, contar determinadas histórias só é possível quando existe acesso a registros confiáveis que permitam reconstruir essas narrativas.
Diovan apresentou o projeto Vidas Negras como uma iniciativa de resgate e valorização da presença negra na história local. Ele ressaltou que toda trajetória tem valor, independentemente de alguém ter ocupado cargos públicos ou não, e afirmou que a exposição instalada na Gare representa apenas uma parte do trabalho desenvolvido nos últimos anos. Para ele, reconhecer as histórias e resistências da população negra é fundamental para compreender o verdadeiro significado do 20 de novembro e construir uma memória coletiva mais plural.