Patrimônio Histórico: tombamento dos prédios constrói a memória patrimonial de Passo Fundo
Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas[…]
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
Mario Quintana
O mestre e doutorando em História pela PUC, Eduardo Knack, inicia com esse poema do autor gaúcho Mário Quintana, seu trabalho sobre o patrimônio histórico de Passo Fundo em paralelo ao crescimento urbano e projetos de tombamento entre 1990 e 2000. O historiador, que já apresentou a historia da cidade até mesmo em Portugal, explica que investigando o tombamento dos prédios que constroem parte da memória patrimonial do município é possível perceber os “fantasmas” que habitam essas edificações, bem como os “sonhos” contidos dentro de suas paredes.
Ele relata que a análise dos projetos de tombamento leva a reflexão sobre o sentido e valor histórico que esses prédios representam para o poder público e para a comunidade. Segundo frisa, é possível observar a importância dada à edificação pelo poder legislativo e executivo do município. Eduardo questiona se há elitização do patrimônio e relação das edificações à construção de uma memória patrimonial baseada no progresso, modernização e no desenvolvimento econômico.
Tombamento e progresso
De acordo com o historiador, para alcançar um objetivo que faz parte do imaginário passo-fundense: tornar Passo Fundo a “capital do planalto” foram escolhidos determinados prédios para tombamento. “O patrimônio oficial é uma memória política, de busca pelo progresso, industrialização e desenvolvimento econômico. Enquanto essa memória era reconhecida como patrimônio histórico, acontecia o esquecimento de outros aspectos que também fizeram parte da construção da cidade”, afirmou Eduardo Knack. Citando o projeto de lei, do então vereador Ivanio Bernardon, apresentado para tombar o prédio do antigo banco da Província, hoje Banco Itaú, que demonstra, em sua opinião, a importância econômica.
O historiador registra a importância de preservar esse aspecto da história. Porém ressalta que o prédio está ligado, sem dúvida, ao desenvolvimento econômico das elites municipais, e, principalmente, a modernização e crescimento de Passo Fundo. As características arquitetônicas preservadas são registros históricos da caminhada rumo ao crescimento.
Outra edificação que também se encontra em bom estado de conservação, devido à iniciativa privada, é o prédio da Cervejaria Brahma, que representa experiências ligadas ao progresso, industrialização e poder econômico do início do século XX. No entanto Eduardo afirma que: “ainda hoje existe o “beco da Brahma”, onde há casas dos antigos operários da fábrica, mas, não se menciona tombar ou dar auxílio aos proprietários para que suas habitações sejam preservadas. Um beco em que até o calçamento de paralelepípedos não foi alterado. Fica clara a intenção de cristalizar uma memória referente ao progresso, colocando em segundo plano o trabalho dos operários que faziam funcionar a fábrica”.
O historiador aponta, ainda, o prédio símbolo da cidade, que marca o desenvolvimento econômico local, que é a Estação Férrea da Gare. “A estrada de ferro foi fundamental para economia do município, responsável pelas primeiras grandes transformações da área central que alteraram os rumos da expansão urbana. A justificativa apresentada pelo vereador Flamino Mello de Lima, em novembro de 1990, mostra a preocupação com a perda da história do município como últimos vestígios urbanos do final do século XIX”.
Casa Gabriel Bastos
A derrubada da Casa Gabriel Bastos, situada na Rua XI de Novembro, é um exemplo do descaso, lembra Eduardo Knack, um patrimônio que também legitimava experiências políticas municipais na figura de seu proprietário, um político e intelectual de sua época. Além de fundador do Banco Popular, também foi Intendente Municipal e fez parte do Conselho Municipal ao lado da elite política. Era membro e importante articulador do Partido Republicano Rio Grandense. Representando, conforme salienta o especialista: “a verticalização do centro também um referencial de identidade, mais forte do que o próprio patrimônio histórico, e mais lucrativo”.
Patrimônio e a política
Entre os ícones da memória política de Passo Fundo, não faltam exemplos. O historiador conta que tombada por iniciativa do vereador Thalito Fauth Mendonça, a Igreja Metodista representa um seleto grupo. Instalada em 1912, mas tendo seu atual templo construído em 1919, localizada no centro da cidade. Esse patrimônio marca a relação entre política e religião. Em 1994, é encaminhado o projeto de lei que determina o tombamento do prédio Texas do Instituto Educacional. Em 1921, a Prefeitura doou aos Metodistas o terreno da praça Boa Vista para o início da construção do prédio. Os valores atribuídos à edificação são claros, como identifica o historiador, o tombamento pretende deixar marcado o “espírito empreendedor” ligado à construção do prédio.
Espaço Cultural x Clube Visconde do Rio Branco
Eduardo Knack aponta questões como a preservação dos prédios que compõem o Espaço Cultural Resoli Doleski Pretto em detrimento do Clube Visconde do Rio Branco. “O Espaço Cultural é uma representação da memória política da região. O Visconde do Rio Branco representa a memória dos escravos africanos na cidade. Ao contrário dos prédios que representam a memória política, o Visconde do Rio Branco sofre com o descaso”.
O conjunto arquitetônico que compreende os prédios da Intendência Municipal (hoje Museu Histórico Regional – MHR e Museu de Artes Visuais Ruth Schneider – MAVRS), Câmara Municipal de Vereadores (hoje Teatro Municipal Múcio de Castro), o Clube Pinheiro Machado (hoje Academia de Letras Passo-fundense) são símbolos da comunidade. As principais decisões políticas do município foram concretizadas nessas edificações.
Já O Clube, localizado na rua Moron, uma das ruas que caracterizou a “belle époque” passo-fundense, foi construído para ser um centro de auxílio entre ex-escravos. Durante a década de 1990, passou por dificuldades financeiras e teve sua sede parcialmente destruída. Edy Isaias, descendente de umas das famílias fundadoras do clube, iniciou uma jornada para tentar restaurar o clube, que não surtiu resultados. Edy Isaias, foi o primeiro negro formado em jornalismo em Passo Fundo, na década de 1960.