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Cidade

Passo Fundo: a história dos 158 anos

Públicado em Por RD Uirapuru / Redação Uirapuru
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A história de Passo Fundo é muito mais antiga que sua emancipação. Por lei, foi instituída e assinada como Vila por Jerônimo Coelho em 28 de janeiro de 1857. A Câmara, no entanto, foi instalada em 7 de agosto e essa foi a data escolhida para se comemorar o aniversário da cidade. Por muito tempo o feriado dava-se nesta data, porém, mais tarde substituiu-se para o feriado de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município. Sua história, por outro lado, é muito mais antiga que isso. De acordo com o diretor do Instituto Histórico de Passo Fundo, historiador Fernando Miranda, há registros que em 1632 foi fundada nesta região pelos jesuítas a redução de Santa Tereza, isso sem falar na população indígena que foi muito anterior mas que não se tem documentos.

 

Passo Fundo em 1857

Segundo o diretor do Instituto Histórico, no dia 28 de janeiro de 1857, a freguesia de Passo Fundo foi elevada para a condição de Vila. O município tinha uma extensão de 24800km quadrados, o equivalente a dois milhões de hectares. Estatísticas da época apontam que existia 8108 habitantes, deste total, 1600, 20% desta população era de escravos. Essa população correspondia a toda a extensão, mas na vila mesmo, estima-se que viviam cerca de 500 pessoas.  Ele explica que na época da emancipação não existia Prefeito nem intendente e quem dirigia a cidade era a Câmara de Vereadores. O líder da Câmara era o vereador mais votado e o mais votado foi o Capitão Araújo, “ele ficou exercendo a função que hoje é do Prefeito e antigamente era do intendente”.

 

Passo Fundo tinha 5 travessas e duas ruas. A travessa da Direita (Sete de Agosto) era a mais distante para o lado do boqueirão.  Tinha também a travessa da Ponte (Dez de Abril), travessa da Princesa (Marcelino Ramos), travessa das Flores (Teixeira Soares), a travessa Santa Clara (travessa da Ladeira), a rua do Comércio (Avenida Brasil) e a rua São Bento (Paissandu). Fernando Miranda relata que na época os nomes eram dados de forma espontânea pelos habitantes, “antes de 1857, o nome das ruas era dado pela própria população. Ele surgia naturalmente. As pessoas viam algo que identificava o local e surgia. Alguns nomes religiosos como travessa Santa Clara e rua de São Bento porque a população era muito religiosa, uma herança portuguesa. Com a instalação do município, esse poder de nomear ruas foi atribuído então à Câmara Municipal e, com isso, os nomes começaram a ter um nome mais racional”.

 

Lazer e economia

Conforme Miranda, as atividades de lazer dos passo-fundenses  se dividiam em jogo de cartas, saraus, alguns tocavam piano em suas casas, mas o principal lazer era a carreirada, “a corrida de cavalos, a cancha reta. Ela saia da Praça da Mãe, disparava passando em frente ao Notre Dame e parava onde hoje é a Academia Passo-Fundense de Letras”.

 

A economia da cidade era pequena e girava em torno da extração de erva-mate.  O diretor do Instituto Histórico revela que entre 1857 e 1858 saíram do município 600 toneladas de erva-mate, “é uma planta nativa dessa região toda. Até hoje, ela nasce de forma espontânea e foi o primeiro ciclo econômico que aconteceu no município”.

 

A primeira Igreja

A primeira Igreja foi a matriz onde está hoje a Catedral Metropolitana, em frente a Praça Marechal Floriano. A capela rústica de madeira foi construída em 1833, que mais tarde foi refeita  porque estava em ruínas, “existia também um sino ao lado da capela. Esse sino veio das missões. Praticamente, ao lado dessa capela, existiu o primeiro cemitério que ficava mais ou menos na esquina da Independência com a General Neto, ali foi o primeiro cemitério que existiu até 1902, quando então se transferiu para a Vera Cruz. Tem uma planta da cidade que mostra exatamente esses dois locais: a primeira capela e o primeiro cemitério”, conta Miranda.

 

Cabo Neves

O diretor do Instituto Histórico lembra que  Cabo Neves foi a primeira pessoa a se fixar na cidade, em 1826. Ele veio do Paraná, perto de Curitiba e percebeu que Passo Fundo era uma terra de passagem dos tropeiros. “Os tropeiros que ficavam aqui por uma noite e seguiam viagem. Ele comerciava com esses tropeiros e acabou montando uma fazenda, nascendo o dali o primeiro núcleo de Passo Fundo, claro que, antes, já existiam os indígenas”, complementa.

 

As guerras

A cidade sofreu o impacto das guerras e disputas. Fernando Miranda relata que logo após o Cabo Neves ter se instalado em Passo Fundo, veio a guerra dos Farrapos e a cidade quase findou, “os dois lados dos combates passavam por aqui e não se achava quase nada. É muito difícil até se achar fotos. As pessoas foram embora da povoação”. Em 1845, terminou a Revolução Farroupilha e a economia dá um salto novamente por mais 20 anos, “então veio a guerra do Paraguai e a economia sofre. Depois a Revolução Federalista e a cidade perde novamente. A imigração teve uma forte participação no crescimento. Primeiro vieram os alemães e depois os italianos”.

 

Segundo o diretor, depois desse período de disputas inicia-se o ciclo da madeira, a extração de pinho e a economia entra em alta novamente. “Depois vem o ciclo do trigo, a cidade começa a crescer, os hospitais começam a se instalar e assim segue e não para mais de crescer e se encontra nesta situação privilegiada de polo econômico do norte do estado”, afirma.

 

Urbanização e Cultura

Para Fernando Miranda, é importante destacar a virtude do município para a cultura, “é uma das raras cidades que tem uma academia de letras com mais de 70 anos e isso mostra que sempre houve na cidade uma preocupação com cultura”.

De acordo com o diretor, o desenvolvimento urbano se deu diferente de outras cidades. Na maioria das vezes, a população se instala nas proximidades da capela e Passo Fundo foi sendo habitada indo em direção ao Boqueirão. A urbanização se voltou para o centro da cidade com vinda do trem, “o trem possibilitou uma alavancagem muito grande para cidade, permitiu que se deslocassem materiais e pessoas. A madeira, por exemplo, através do trem, a própria erva- mate. O trem chegou em 1898 e, 1911 até São Paulo, e isso criou condições para que Passo Fundo começasse a se desenvolver, haver troca econômicas com outras regiões bem mais avançadas”.