Para infectologista que orienta setor, fechar frigoríficos não é a melhor escolha na luta contra o vírus
O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS) julgou e restabeleceu a interdição da JBS Passo Fundo, em um mandado ajuizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A decisão ocorreu em sessão realizada na última segunda-feira (22) e publicada na noite da última quarta-feira (24).A situação ocorre porque o MPT cobra o cumprimento integral de medidas de proteção contra o coronavírus.
A Uirapuru entrou em contato com a JBS, a qual informou que não comenta decisões judiciais. No entanto, a empresa reiterou que tem como objetivo prioritário a saúde de seus colaboradores e ressalta que desde o início da pandemia tem adotado um rígido protocolo de prevenção contra a Covid-19 na sua unidade de Passo Fundo (RS) e em todas as suas plantas no Brasil.
Em entrevista na Uirapuru, falando exclusivamente do ponto envolvendo ações contra as contaminações, o infectologista Adauto Castelo Filho, que orienta as açoes na JBS, explicou a situação de uma forma geral. O médico possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo (1976), mestrado e doutorado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal de São Paulo (1988). Tem Pós-doutorado na Universidade da Pensilvânia, EUA, em Economia da Saúde e atualmente é professor-associado de Infectologia na Universidade Federal de São Paulo.
Conforme o médico, os ambientes de fábricas em geral e frigoríficos estão enfrentando de forma mais dura a pandemia devido à proximidade das pessoas em um ambiente que obrigatoriamente é fechado. Isso não é uma exclusividade de uma empresa A ou B e impõe desafios para a segurança do trabalhador. Como se trata de uma atividade essencial é algo que se compara a um ambiente de hospital, disse ele.
Por se ter um aglomerado de doentes e momentos em que não há como existir o distanciamento ideal é preciso usar medidas de proteção. Porém não se deve esquecer que estas pessoas estão em uma comunidade com vírus, que é passo Fundo. Frisou que é responsabilidade sim da empresa em tomar todas as medidas de segurança, mas o trabalhador passar boa parte do tempo fora da empresa, exposto ao risco do vírus.
A maneira mais segura na fábrica é pensar que todos estão infectados, tomando medidas de segurança para evitar que o vírus chegue ao companheiro ao lado. Explicou que, nos ambientes de frigorífico, ele propôs usar a viseira e a máscara de forma que minimiza o risco da gotícula de saliva chegue no próximo. Lâminas de acrílico também devem ser usadas nos casos onde não há distanciamento.
Disse ainda que será preciso fazer mais testes, usando agora testes que estão mais baratos e que usem até mesmo a saliva. Disse que o inverno em si não tem efeito no vírus, mas sim faz as pessoas ficarem mais fechadas e agrupadas. Falou que os frigoríficos tem recursos financeiros e que podem colocar medidas de segurança e testagem que a rede pública não consegue.
Finalizou dizendo que o importante é que as autoridades de saúde possam entender que, trata-se de uma atividade essencial no meio de uma pandemia que vai durar certamente pelo menos um ano. Disse que é preciso encontrar mecanismos que aumentem a segurança do trabalhador, mas não algo simples como interromper as atividades do trabalhador. Isso por que você coloca na rua estas pessoas na sociedade, sem fazer nenhum teste e não estarão isolados.
Isso, conforme ele, pode trazer um risco que não se pode afirmar que é menor do que seguir apenas trabalhando. Alertou que o impacto econômico destas medidas pode atingir o pequeno produtor que terá de sacrificar os animais sem entregar.