Outubro Rosa: Passo Fundo realiza menos de 20% das mamografias recomendadas
Pelo menos 12 mil mulheres deixam de realizar a mamografia todos os anos em Passo Fundo. Mesmo com o exame disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a cidade realiza menos de 20% do volume mínimo necessário para um rastreamento eficaz entre a população atendida pela rede pública. Em 2024, segundo informações da Secretaria Municipal da Saúde, foram realizados apenas 2.555 exames, número muito inferior ao ideal estimado entre 12 e 13 mil, considerando de que mulheres entre 50 a 69 anos realizem a mamografia a cada dois anos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, para reduzir de forma significativa a mortalidade por câncer de mama, é preciso alcançar ao menos 70% de cobertura dessa população.
O impacto desses números vai muito além das estatísticas: ele se reflete diretamente na vida das mulheres. A falta de rastreamento adequado significa diagnósticos tardios, tratamentos mais agressivos e histórias que poderiam ter sido diferentes. Em Passo Fundo, a taxa de mortalidade por câncer de mama entre mulheres de 50 a 69 anos chegou a 32,7 por 100 mil, número 77% maior que a média nacional (18,5 por 100 mil) e 23% acima da média do Rio Grande do Sul (26,6 por 100 mil). Além disso, uma a cada quatro mulheres gaúchas nunca realizou uma mamografia e, apenas 2,7% dos diagnósticos são feitos ainda em estágio 0, fase que as chances de cura superam 95%.
Segundo o oncologista clínico Dr. Alvaro Machado, esse cenário revela um gargalo estrutural importante na oferta e adesão ao rastreamento do câncer de mama, o que compromete a detecção precoce e o sucesso dos tratamentos.
“Se todas as mulheres entre 40 e 69 anos fizessem a mamografia anualmente, seriam necessários cerca de 40 mil exames por ano em Passo Fundo. Em 2025, a rede pública realizou em torno de 1.500 até a metade do ano. Mesmo considerando que aproximadamente 30% das mulheres têm acesso ao exame por planos de saúde e que a recomendação do Ministério da Saúde é de realização a cada dois anos pelo SUS, a cidade deveria realizar pelo menos entre 12 e 13 mil exames por ano. Ainda assim, estamos longe do ideal: o número atual representa menos de 20% do que seria necessário para um rastreamento minimamente eficaz”, afirma o médico. Ele lembra ainda que a situação local reflete um quadro estadual igualmente preocupante: uma em cada quatro mulheres no Rio Grande do Sul nunca fez uma mamografia ao longo da vida.
A Secretaria Municipal da Saúde de Passo Fundo reconhece que o número atual está longe do ideal. Segundo a coordenadora de saúde, Caroline Gosch, a adesão ao exame ainda é baixa mesmo com campanhas de conscientização e oferta contínua. “Ainda temos dificuldade em atingir o público-alvo e garantir que as mulheres procurem o exame de rotina. Por isso intensificamos as ações do Outubro Rosa, que historicamente aumentam em cerca de 40% a procura pela mamografia”, explica.
Essa realidade tende a ganhar ainda mais relevância com a atualização da recomendação nacional. Em setembro deste ano, o Ministério da Saúde passou a indicar a mamografia a partir dos 40 anos – dez anos antes do que era orientado até o ano passado. A mudança, solicitada por sociedades médicas de mastologia, oncologia e radiologia, equipara a rede pública ao que já era praticado na rede privada, e amplia significativamente o público-alvo do exame e reforçando a importância do rastreamento precoce. Segundo dados do Ministério da Saúde, 22,6% dos casos de câncer de mama ocorrem entre mulheres de 40 a 49 anos. Em Passo Fundo, este índice chegou a quase 13% no ano passado.
Hábitos de vida aumentam o risco da doença
Especialistas ressaltam que a baixa cobertura de exames é apenas parte do problema. Para os médicos, os números não podem ser analisados apenas sob a ótica da cobertura dos exames. Eles refletem também um conjunto de fatores que influenciam diretamente a incidência e a mortalidade por câncer de mama.
O estilo de vida das mulheres gaúchas é um dos fatores que contribuem para a manutenção de índices elevados da doença. Para o oncologista, os hábitos e as escolhas do dia a dia têm um papel importante no aumento do risco e ajudam a explicar por que o estado apresenta índices piores que a média nacional.
“No Rio Grande do Sul, 60,2% das mulheres adultas estão com excesso de peso – índice acima da média brasileira, que é de 57,1%. O consumo de bebidas alcoólicas também é mais frequente: 16,7% das gaúchas relatam ingestão regular, frente a 13,2% no país. Além disso, somente 22,4% das gaúchas são as que menos praticam atividades físicas regularmente e elas também amamentam seus filhos por períodos mais curtos que a média nacional e a amamentação é reconhecidamente um fator de proteção contra o câncer de mama”, destaca.
Desinformação ainda afasta mulheres do exame
O medo e os mitos estão entre as principais barreiras do rastreamento. Para a médica radiologista da Kozma, Tailise Menegazzo Pisoni, além dos desafios estruturais, fatores comportamentais ajudam a explicar a baixa adesão ao rastreamento. “Ainda existe o receio em relação à dor e ao mito de que a radiação pode causar câncer, o que não é verdade. A mamografia é um exame seguro e fundamental porque permite detectar alterações que muitas vezes não são palpáveis”, relata.