Inspetor Serafim: Homem temido pelos corretivos aplicados na bandidagem
O Sherlock Holmes é um personagem de ficção da literatura britânica criado pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Dolve. Investigador do final do século XIX e início do século XX, Holmes ficou famoso por utilizar métodos científicos e da lógica dedutiva para esclarecer crimes misteriosos e aparentemente insolúveis. Sherlock Holmes ainda hoje é um dos mais atraentes personagens dos romances policiais. Um sinônimo de detetive. Porém, aqui no Norte Gaúcho, também tivemos um personagem da vida real de dar inveja aos britânicos e que renderia bons roteiros para filmes e muitos livros: O inspetor Serafim Lemos de Mello. Homem valente e destemido ganhou fama pela astúcia e pelos famosos “corretivos” que aplicava na bandidagem, inclusive, à bala, se fosse preciso, para esclarecer crimes.
Serafim Lemos de Mello nasceu no interior de Júlio de Castilhos, em 21 de outubro de 1906. Ainda jovem veio para Passo Fundo, onde foi tenente provisório nas Revoluções de 1930/1932 e logo ingressou na Polícia Civil. Ele atuou como inspetor auxiliar, inspetor e delegado durante 30 anos. Após se aposentar, atendendo apelos da comunidade, voltou e trabalhou por mais 10 anos. Nesses 40 anos, o inspetor ou delegado Serafim ganhou fama e era temido pela bandidagem pela maneira que resolvia os casos. Até as mães usavam seu nome para assustar as crianças. “Olha, se não forem dormir vou chamar o inspetor Serafim”, alertavam e, pronto, não se via mais “pio” da molecada.
Devidamente pilchado, Serafim Lemos de Mello usava dois revólveres. Um Smith & Wesson calibre 38 na cintura e um calibre 32 num coldre embaixo do braço, além de uma adaga. Nos casos mais complicados não dispensava a sua velha espingarda Winchester. Ele se envolveu em vários tiroteios, inclusive, antes de ser nomeado policial. Certa feita, Serafim passava por uma picada em um mato, na localidade de Capinzal, onde foi vítima de emboscada. De cima do barranco foi alvejado com dois tiros. Ele caiu ferido e, quando o desafeto se aproximou para dar o tiro de misericórdia, reagiu ferindo-o. O desafeto gritou por socorro ao que Serafim respondeu: “Viu seu filho da p… isso é para você ver que lutar não é como comer feijão”. Ambos sobreviveram.
HISTÓRIAS
O filho de Serafim, comissário de polícia aposentado e ex-vereador, Walter Zimmermann de Mello, que trabalhou com pai, conta algumas histórias do inspetor, pois se fosse narrar todas, daria, no mínimo, um livro. Ele recorda de um caso em que dois acusados de um crime foram presos, mas apesar das provas, negavam a autoria. O inspetor Serafim não teve dúvidas colocou os dois numa viatura – Ford 37 – e rumou para um mato, onde amarrou um deles numa árvore distante. Ao voltar mostrou ao que havia ficado na viatura a adaga toda ensanguentada e sentenciou: “Se você não assumir vai ter o mesmo fim do teu comparsa”. Assustado, o homem implorou: “não me mate inspetor eu confesso.” Após, o inspetor Serafim revelou que havia passado a adaga em um fígado de gado que havia levado junto. A astúcia deu certo e os dois homens foram parar na cadeia.
Mas nem sempre foi fácil assim, lembra Walter Mello. Ele conta que certa vez seu pai passava em frente a um boteco na famosa vila Sapo – hoje Operária -, onde dois marginais simularam uma briga para atraí-lo. Serafim foi apartar a peleia quando foi atingido na cabeça com um golpe de banjo – instrumento musical -, que um dos marginais portava. Mesmo caído e com os olhos cobertos pelo sangue, ele conseguiu sacar o revólver e atirou ferimento o marginal, que se aproximava para dar um golpe final. Foram dois tiros na altura do abdômen com as balas saindo nas costas por um buraco só.
O inspetor Serafim prendeu o outro marginal levando-o para a DP e mandou que fossem buscar o morto, mas foi constatado que o ferido tinha sobrevivido. Numa festa no distrito de Coxilha, um homem já embriagado estava perturbando e gritando: “Viva a Alemanha, Viva a Alemanha”, isso em plena 2ª Guerra Mundial. Serafim foi chamado e levou o bêbado para a DP ordenando que beijasse 100 vezes e Bandeira Brasileira. O homem cumpriu a tarefa e ao final perguntou: “é para beijar o pau também, seu Serafim? A ideia foi aceita.
Um famoso bandido, recolhido ao presídio em Passo Fundo, onde hoje é o Corpo dos Bombeiros, viu o então inspetor Walter Mello e contou que certa ocasião encontrou no Paraná um comparsa de crimes e o convidou para vir para a nossa cidade. O convidado perguntou então se aquele bandido da polícia, Serafim Mello, ainda estava na cidade. Com a resposta positiva, rejeitou o convite. Outra vez, o inspetor Serafim pegou um marginal e levou para o mato, onde mandou que cavasse a sua sepultura. Enquanto cavava, o homem implorava para que o inspetor não o matasse. Com a cova pronta, o Serafim sentenciou: “posso mudar de ideia se você promoter sumir de Passo Fundo”. O marginal saiu em disparada e nunca mais foi visto.
Pela sua fama, Serafim ficou conhecido como o “Lampião do Sul,” mas ao contrário do Capitão Virgulino Ferreira da Silva – Rei do Cangaço -, era um homem corretíssimo. Walter Mello disse que marginal não tinha vez com o inspetor Serafim, que arriscava a vida nos enfrentamentos e tiroteios para defender a sociedade. Ele morreu no dia 23 de junho de 1969, aos 63 anos. Morreu o homem, mas ficou o mito. Uma dos principais ruas do bairro Vera Cruz leva o seu nome, numa justa homenagem da comunidade passo-fundense ao delegado, mas que teve seu nome perpetuado como o inspetor Serafim.