História nas lápides: túmulos que guardam memórias
Alceu Annes tem 68 anos e um hábito bem incomum. Ele costuma visitar o cemitério da Vera Cruz e ficar horas passando por entre os túmulos que ali estão. Alceu não gosta de velórios e funerais, mas se interessa mesmo pela história que parece estar guardada nos túmulos. A visitação ao cemitério da Vera Cruz começou por “obrigação”, quando ele levava sua mãe ao local, quase que diariamente, para fazer a genealogia da família, “eu fazia aquilo com a maior das má vontades. Não me interessava absolutamente”, conta.
Cerca de 20 anos mais tarde, a mãe de Alceu deixou de ir ao local, mas ele foi surpreendido com uma vontade de ir ao cemitério. Lá chegando percebeu tinham desmanchado o túmulo de seu bisavó, Antoninho Xavier e de sua bisavó. A partir de então, ele passou a cuidar e limpar os túmulos, “se não cuidarmos, quando menos se espera, eles somem. Então, eu comecei a limpar, colocar flores, mais com a preocupação de mostrar que eles não estavam abandonados”. O curioso é que Alceu passou a cuidar não só dos túmulos da família, mas de outros que acreditava serem de relevância histórica ou até mesmo de uma beleza rara ou antiga. Além de limpar e enfeitar, ele também fez azulejos com o resumo de quem foram essas personalidades, “comecei a vim quase todo dia e peguei fama de muito visitador de cemitério” comenta. Em meio à conversa, Alceu brinca que quer lançar uma campanha “Adote um túmulo” para que mais sepulturas sejam preservadas e não se percam mais memórias.
Das visitas ao cemitério surgiram tantas histórias, que Alceu seguiu os passosda mãe e fez um livro de 400 páginas com a genealogia da família Lucas Annes. Alceu é filho de Gervasio Araújo Annes e neto do Coronel Gervasio Lucas Annes e Etelvina Araújo Annes. Sua mãe, Marina Xavier e Oliveira, era filha de Antonino Xavier e Oliveira, por sua vez, seu avô. Como é possível perceber, a família de Alceu teve figuras que marcaram a história da cidade. O hábito de visitar o cemitério permanece. Alceu diminuiu a frequência, mas não perde o fascínio pelo passado, “é difícil explicar, algo de natureza emocional. Não gosto que desmanchem as coisas, mesmo que não seja diretamente ligado à família, eu quero preservar. Eu venho ao cemitério e não tenho vontade de ir embora”, finaliza.
Coronel Gervasio Lucas Annes
Nasceu a 10 de Abril de 1853 em Cruz Alta. Ficou órfão de pai aos dez anos de idade. Em 1870 veio morar em Passo Fundo, onde obteve o cargo de escrivão da Coletoria. Com o intento de tornar-se advogado, aproveitava suas horas de lazer, para o estudo autodidata do Direito. Nessa época a faculdade de direito mais próxima era a de São Paulo, pois a de Porto Alegre só surgiria em 1900. Sua mãe, seus irmãos e irmã logo vieram também para Passo Fundo. Logo organizou o Partido Conservador do qual era chefe. Com a queda do gabinete conservador no governo Imperial, em Junho de 1879, Gervasio Lucas Annes, assim como muitos chefes conservadores, rompeu com o governo imperial, passando para o Partido Republicano. Na chefia desse partido, em que permaneceu até a morte, defendia com a palavra e com a escrita, os ideais republicanos. Era um homem de grande objetividade e ponderação. (Informações do Livro de Alceu Annes).
Francisco Antonino Xavier e Oliveira
Nasceu em 5 de setembro de 1876, na Fazenda dos Três Capões, município de Passo Fundo. Seus pais, Antonino de Oliveira Penteado e Dona Idalina Xavier e Oliveira. Em Lagoa Vermelha, passou parte de sua infância. Mais tarde, serviu de madrinheiro de tropas e muares que eram vendidos na Feira de Sorocaba. Em Passo Fundo fez os seus primeiros estudos. Conhecido como “Pai da História de Passo Fundo” foi professor, jornalista, advogado, historiador, funcionário público, Juiz Municipal, Prefeito nomeado, participou da fundação do Hospital de Caridade, Grêmio Passofundense de Letras, CTG Lalau Miranda, Sociedade Pró-Universidade e várias outras instituições. Presidente de Honra do Instituto Histórico de Passo Fundo – IHPF, 1954-64. (Informações do Guia de Visitação do Cemitério Vera Cruz).
Guia de Visitação do Cemitério Vera Cruz
Em outubro de 2014 foi lançado o Guia de Visitação do Cemitério Vera Cruz. Através dele é possível conhecer a história do cemitério e ainda da cidade, pois no material estão registrados os nomes dos principais vultos, responsáveis pelo desenvolvimento de Passo Fundo. Figuras como Gervásio Lucas Annes, José da Silva Loureiro – “Barão”, Coronel Chicuta, Antonino Xavier, dentre tantos outros.
No mapa também estão localizados o túmulo da santa popular, Maria Elizabeth e o Mausoléu aos Militares. O guia foi elaborado pelo Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF) e o Arquivo Histórico Regional da Universidade de Passo Fundo. O material tem como objetivo resgatar a história das sepulturas e obras de arte existentes no Cemitério Vera Cruz. O folder pode ser retirado junto ao Instituto Histórico de Passo Fundo, com entrada pela Rua Paissandu, fundos da UPF Idiomas.