Herdeiros da Pampa pobre
Esta música gravada num primeiro momento pelo gaúcho da fronteira e depois transformada em rock pelos Engenheiros do Hawaii retrata muito bem a penúria que vive o nosso Estado. No campo, é claro, do executivo. Somos críticos veementes de algumas atitudes tomadas pelo governador Sartori. Pedir uma moratória de 180 dias para os seus credores, inclusive com ameaças de atrasar salários dos servidores, de longe, julgamos ser de extrema incompetência.
Para resolver nossos problemas domésticos os últimos governos buscaram dinheiro em fontes que pareciam não esgotar. Os depósitos judiciais foram jogados no caixa único do governo. Mas que caixa único é esse que a gente fala? É um dinheiro que chega e nem esquenta e já tem que sair! Quarenta e sete anos se passaram e o Estado vem amargando dificuldades financeiras. Hoje este assunto é de domínio público, com a transparência das administrações, com a responsabilidade fiscal, ficou muito mais difícil para o governante gastar o dinheiro e não dizer aonde que foi.
Mas lembrei-me de que houve uma época de vacas gordas no Estado em que o governante gastava sem freio sendo um exemplar do “filho nobre”, aquele tipo irresponsável que nunca sentiu na carne as dificuldades da vida e doentiamente são convictos de que o dinheiro e arrecadação são infinitos. Com isso se autorizavam a conceder todo tipo de benesses, vantagens onde se poderia trabalhar menos, ganhar mais e aposentar-se com bem menos tempo do que os demais mortais que mantém a sinecura com seu suor e sacrifício. E sempre que faltava dinheiro, avançava no caixa do banco e também da nossa saudosa Caixa Econômica Estadual.
Vieram os direitos “de queridos”. Porque era assim que alguns governantes que passaram pelo Piratini tratavam os do seu lado de modo a tentarem se perpetuar no poder, pagando indiscriminadamente toda e qualquer reinvindicação sob a alçada do Estado sem pensar no- “neto pobre”- que com certeza adviria quando a conta não fosse mais fechar. Um dia iria acabar. Demorou 47 anos, como disse o Secretário da Fazenda atual, mas, chegou. Olhando nos olhos dos atuais governantes, como fizemos por ocasião da visita do senhor governador e dos seus secretários principais, aqueles que mexem com as obras, com o planejamento, com o desenvolvimento e as finanças do Estado, cheguei a me emocionar. A tristeza e a desesperança que estes homens públicos trazem hoje.
Como diz o ditado: pais ricos, filhos nobres e netos pobres. Estes netos somos nós, que hoje estamos amargando esta desesperança porque logo ali atrás tivemos um Estado rico, com filhos nobres que esbanjavam e esbanjaram sem saber de onde é que saia. Não suaram a camiseta, não verteram sangue para conquistar a vida que levaram e hoje nós somos os netos pobres que vivemos de pires na mão, ou como diz o gaúcho, de chapéu na mão, pedindo que alguém tenha pena de nós.
Comentando pessoalmente nessa semana com o governador do Estado, com seu Secretário de Fazenda, o homem que cuida do dinheiro, sobre os recursos do Rio Grande, ele declarou: – Mas de que dinheiro você está falando JG, se o cofre está raspado. E o pior, nem crédito temos mais. Não podemos buscar dinheiro em lugar algum.
Brigadianos concursados prontos para serem chamados para reforçar a segurança pública não foram enganados pelo governador ontem. Seria muito fácil para ele bater nas costas daqueles jovens que fizeram concurso público, estes sim com direitos adquiridos, não foram pedir benesses, pagaram suas inscrições e despesas e agora receberam um não do governo. Porque o governador foi sincero e taxativo: – Não sei quando terei recursos para convocá-los. No lado de fora sinetaço. Professores com seus sindicatos e representantes. Querem melhores salários, condições de trabalho, uma escola pública de verdade todas solicitações justíssimas e necessárias.
Saí de lá arrasado com a certeza de que o Estado foi desmontado e terminou. Nada mais vale a pena em termos de serviços e obrigações elementares e razão de existir do Estado. Você tem um custo por aluno para manter a máquina da Educação que é mais que o dobro se comprasse vaga numa escola particular. Você tem um custo de saúde que também chega a esses patamares. Você tem um Daer que há anos se terminou, igualmente, com um custo de manutenção da estrutura do órgão que é inviável se comparado ao governo comprar obras de construtoras privadas a qualquer tempo e volume. Assim por diante, poderíamos fazer um rosário de todos os organismos e instituições sob a guarda do governo que foram extintas ou se mantem por mero capricho político.
Mais uma vez essa minha cabeça viajou. Se eu tinha, como é que fui perder? O que fizeram de tão errado? Por que um professor não pode ganhar como ganhava na época do auge da educação gaúcha, modelo para o Brasil? Por que um operador de máquina do DAER não pode ganhar uma remuneração digna semelhante ao que ganha um igual na construtora privada e esse órgão servir aos gaúchos? Será que nunca se deram conta de que estes todos iriam se aposentar logo e teriam que continuar a pagá-los e ainda contratar outro para o lugar destes? Será, Será??? Eram tão ignorantes, idiotas, irresponsáveis ou politiqueiros??
Mas de nada resolve ficarmos buscando culpados. Agora temos que buscar saídas. Todos os gaúchos, sem exceção, seja funcionário público ou privado; empregador ou prestador de serviço; nos unirmos à busca de uma luz. Não importando e nem tão pouco tendo ouvidos ou olhos para o partido político que esteja no comando. É hora de buscarmos a humildade dos nossos ancestrais que aqui sobreviveram por respeitar a lógica, razão e as adversidades. Nos próximos dez anos, venha quem vier, da bandeira partidária que for, não terá como resolver a nossa penúria porque é uma conta que jamais irá fechar. O modelo se extinguiu. Temos que inventar e criar um novo modelo de governo e gestão administrativa. Esta é a dura verdade, que, nem nós, cidadãos gaúchos, queremos aceitar; o que dirá os políticos e quem vive nos tentáculos desse cavalo de tróia…
Neste momento em que você está lendo este texto você deve estar me xingando: “esse cara é um vendedor, um vendilhão da coisa pública. É um privatista!” Nem é essa a questão: privatizar ou não privatizar. A resposta que buscamos é: como viabilizar?? Por que será que nos deixaram uma herança tão amarga e a música que não sai da minha cabeça: eu sou herdeiro sim de uma Pampa pobre.
O pai que era rico, o filho que foi nobre e eu, neto, que estou pobre. Pobre e infeliz. Infeliz até de ver o precursor triste e depressivo por ter aceito e feito parte das benesses irreais que levaram todos a bancarrota. Muitos destes aposentados com menos de 50 anos de idade, cheios de vida, andam pelas ruas cabisbaixos e, sequer, nos olhando nos olhos. Deram-se conta que nem para eles foi vantajoso, pois a qualquer momento podem não receber seus proventos no final do mês, pelo governo simplesmente não ter de onde tirar ou fabricar dinheiro. E ele ajudou a construir essa derrocada quando seu intento corporativista prevaleceu.
E o pior de tudo é que o bisneto dessa geração está também com seu destino traçado. Cada gauchinho que nasce hoje já nasce com a dívida de R$ 6.800,00. Sem sair da barriga da mãe ele já está devendo. É lamentável. O remédio é amarguíssimo. Mas minha Vó Zeferina já dizia: -Negrinho, o remédio é amargo, mas vai te curar.
JG – comunicador da Rádio Uirapuru