Guerra comercial: soja e clima incerto preocupa produtores no Rio Grande do Sul
A disputa comercial entre China e Estados Unidos dominou as discussões no programa “Cotações e Mercado” da Rádio Uirapuru neste domingo (6). Com a soja no centro da turbulência internacional, produtores gaúchos acompanham com apreensão os impactos em suas lavouras, que já enfrentam desafios climáticos e quebra de safra.
Dilermando Rostirola abriu o debate classificando a situação como uma “briga de cachorro grande” inédita, dada a forte dependência do Brasil em relação à China, que absorve mais de 60% da soja nacional. “Sem a China, nós não somos ninguém com a soja”, lamentou Dilermando, prevendo que, apesar da tensão, um acordo comercial será inevitável, pois “comer, nós temos que comer”. Ele aconselhou os produtores a terem cautela para não venderem seus grãos na baixa do mercado.
Mário Klein, por sua vez, enxerga uma possível oportunidade para o Brasil no imbróglio sino-americano. “Eu até torço que os Estados Unidos e a China não se entendam”, afirmou, explicando que a China dificilmente deixará de consumir soja e, caso restrinja as compras dos EUA, terá que recorrer ao Brasil e à Argentina. Klein alertou, contudo, para a pressão de oferta nos próximos meses, impulsionada pela necessidade dos produtores de quitar suas contas em abril e maio.
O programa traçou um panorama do mercado global, lembrando que há 40 anos o PIB da China era equivalente ao do Brasil, enquanto hoje o nosso representa apenas 12% do gigante asiático. Em termos de produção, o Brasil projeta colher cerca de 170 milhões de toneladas de soja, superando as estimativas dos Estados Unidos (115-120 milhões) e da Argentina (49-50 milhões), o que reforça o papel do Brasil como principal fornecedor para a China.
A imposição de tarifas elevadas entre os dois gigantes econômicos foi detalhada, com a China taxando em 34% alguns produtos americanos em resposta a medidas semelhantes dos EUA. O superávit comercial chinês em relação aos americanos, que atingiu US$ 429 bilhões no ano passado, evidencia a complexidade da disputa. Analistas questionam a sustentabilidade de uma guerra comercial prolongada para ambos os lados.
Enquanto o mercado internacional fervilha, os produtores gaúchos lidam com as particularidades da safra local. A colheita está bastante adiantada, com estimativas de que 85% da soja já foi colhida na região de Passo Fundo. No entanto, a produtividade tem sido motivo de preocupação. “Houve muita quebra”, relatou um dos participantes, com perdas que podem chegar a 50% ou mais do potencial produtivo em algumas áreas, reflexo de um clima instável com chuvas irregulares e períodos de calor intenso. Essa quebra pode gerar dificuldades de armazenamento para alguns produtores, devido ao menor volume colhido.
A previsão do tempo para os próximos dias também não traz alívio imediato. Há previsão de chuva para o final da tarde de segunda-feira e terça-feira, o que pode interromper os trabalhos de colheita. Um período de tempo mais firme é esperado para meados da semana, mas novas pancadas de chuva estão previstas para o final de semana seguinte.
No âmbito de outros mercados, o milho registrou uma leve alta no mercado internacional, considerada pouco significativa diante do cenário da soja. O programa também destacou o potencial do Brasil no setor de bioenergia, com o etanol e o biodiesel como alternativas importantes para o uso de produtos agrícolas.
Em meio às incertezas do mercado e do clima, a recomendação dos especialistas do “Cotações e Mercado” é de cautela para os produtores gaúchos, evitando decisões de venda precipitadas e acompanhando de perto os desdobramentos da guerra comercial e as condições climáticas regionais.