Ex vereador doa em vida corpo para estudos
Com 68 anos de idade e doador de órgãos declarado há mais de 24 anos, Antonio Bolivar Dóro, ex vereador da cidade de Passo Fundo, anunciou um fato inusitado: ainda em vida, doou seu corpo para a Universidade de Passo Fundo estudar. “Nunca fui fã de velórios e se ficasse somente na doação, não estaria livre de ser velado”, destacou.
Segundo ele, com a Universidade utilizando-se do seu corpo inteiro para estudos, pode descansar em paz sem correr o risco de que seus restos mortais passassem pelo culto religioso que tanto abomina.
Os procedimentos
O aposentado apresentou-se no Instituto de Ciências Biológicas, na Área de Morfologia da UPF, aonde foi redigido um Termo de Doação em Vida que foi assinado por ele e mais cinco testemunhas, que tiveram suas assinaturas autenticadas perante cartório.
Regulamentação
Segundo o Professor Mestre de Anatomia, Gustavo Kura, existe uma regulamentação para que este tipo de doação seja válida. Para um corpo ser utilizado para fins de ensino, ele deve se enquadrar nas Leis Federais que dizem respeito ao uso de cadáveres para fins de pesquisa.
Na Constituição Federal diz que qualquer pessoa pode doar seu corpo para ser usado como objeto de estudo desde que o sujeito esteja gozando de plenas faculdades mentais.
Estudos podem durar 30 anos
Sendo assim, após o falecimento do doador os familiares devem entrar em contato com a Área de Morfologia da instituição, que realizará a remoção do corpo e (se for desejo do mesmo) os ritos funerais. Depois de passar pelos procedimentos clínicos necessários para conservação os cadáveres de estudo podem durar até 30 anos, dependendo da frequência com que são manipulados.
Outros casos
Gustavo Kura reforçou que doar o corpo em vida, como fez Bolívar Dóro, não é algo raro e muito menos comum. O Professor Mestre de Anatomia comentou que no ano de 2012 houve duas doações e nos quatro primeiros meses de 2013 três pessoas já manifestaram o desejo de doar seus corpos para estudo.
O professor citou ainda a importância de ter cadáveres para pesquisa na instituição. Segundo ele é impossível formar bons médicos sem que eles conheçam os detalhes do corpo humano e para isso, corpos humanos disponíveis são fundamentais.
Como doar
Quem tiver interesse de doar o corpo em vida, para que seja encaminhado à Área de Morfologia da UPF após a morte, deve entrar em contato com a instituição através do telefone: (54)3316-8319. Se optar realmente pela doação, a pessoa assina um termo de doação e recebe instruções sobre todos os procedimentos.
Quando ocorre o falecimento, alguém responsável pelo falecido deve comunicá-lo imediatamente à Faculdade, para que todas as providências necessárias sejam tomadas.
A doação após a morte, em todos os casos, só é efetivada com o consentimento da família. Por este motivo, é tão importante que o doador converse com sua família para que ela não só esteja ciente da opção pela doação, mas que concorde com ela.
Os corpos doados só não poderão ser utilizados em casos de morte trágica, como assassinato, acidente automobilístico e suicídio.
Contribuição para a medicina
Segundo especialistas, o ato da doação beneficia a população como um todo, pois ajuda a capacitar médicos e outros profissionais da área de saúde.
O conhecimento cirúrgico e a compreensão do mecanismo e tratamento de várias doenças depende, em parte, da visualização dos órgãos e estruturas do corpo humano.
Segundo a Sociedade Brasileira de Anatomia (SBA), há alguns anos as universidades brasileiras enfrentam dificuldades em obter corpos para estudo.
Entre os motivos estariam o grande aumento no número de faculdades, a progressiva diminuição de cadáveres não reclamados e a falta de informação das pessoas sobre a possibilidade da doação. Para resolver o problema, a instituição tem investido em campanhas periódicas que defendem os benefícios da doação de corpos para a universidade e explicam aos interessados como proceder.