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Política

Editorial do Troca-troca: presidente Jair Bolsonaro precisa falar para todos

Públicado em Por RD Uirapuru / Redação Uirapuru

O Editorial do Jornal Troca-Troca desta semana abordou a relação do presidente da República, Jair Bolsonaro, com as redes sociais.

Confira na íntegra:

“No Brasil de hoje, diante do fenômeno recente das redes sociais, constata-se inaceitável a anomalia no campo de ação dos veículos de comunicação social, ou seja, o presidente Jair Bolsonaro optou como rotina por se comunicar só com algumas pessoas. Ele passa mensagens, críticas e opiniões a um pequeno grupo de seguidores simpatizantes que impulsionam redes sociais como Twitter, Instagram, WhatsApp. O grupo restrito propaga os assuntos com a versão positiva do presidente, sem espontaneidade, postura crítica factual ou análise realista. Na prática, faz o papel das claques contratadas para comício eleitoral.

O que se verifica desde o inicio do governo é que Bolsonaro adotou posturas segregacionistas, fazendo, de modo indevido, o que fazia antes de ser eleito. Várias considerações podem ser feitas desse comportamento presidencial inadequado. Ele não se dá conta, por exemplo, que ignorar e segregar veículos específicos e/ou a imprensa em geral ou se recusar a dar entrevistas a jornalistas é o mesmo que desconfiar de médicos e assim se auto-consultar e se auto-medicar? Seria o mesmo que desconfiar de advogados e então se auto-defender em circunstâncias judiciais.

Outro aspecto: como usou intensamente as redes sociais na campanha ele, agora equivocadamente crê que foram elas que o elegeu. É grande erro achar que obteve a sua vitória nas urnas por força dessas redes e por grupo de simpatizantes digitais. Bolsonaro esquece que sua votação é produto de um momento nacional dramático. Para sua vitória, teve peso estrondoso o asco do povo ao modelo corrupto que saqueava o país. Milhões votaram nele e não apenas no rol dos contatos do smartphone. Ignorar veículos de comunicação é agredir princípios republicados e atestado de soberba pura: ‘eu e meu grupo fizemos papel de repórter e jornalistas nos perguntando e respondendo como achamos melhor’. Elimina análise crítica e exalta só a face perfeita, bonitinha do que faz. Desse modo, cria sua ilha da fantasia e transita sem hipótese de equívoco, quiçá com dom divino de ser a verdade única.

Além da estupidez técnica de comunicação com as massas (sua drástica queda de popularidade em menos de 100 dias deveria servir de alerta de que há algo errado), deixa de informar a nação. Imaginem como estaria sua imagem se tivesse a humildade (e cumprisse o compromisso democrático de informar o povo) se detalhasse suas ações, seus projetos, suas intenções aos jornalistas usando veículos de comunicação? Particularmente utilizado, o rádio, que na atualidade é o veículo de maior confiança dos brasileiros, conforme recente pesquisa nacional… O rádio, que é o mais democrático veículo de informação… O rádio, que atinge a todos: pobres, remediados ou ricos; que chega ao letrado e ao analfabeto; o rádio, que está em todos os locais: no lar, no celular, no trabalho, no carro, na cidade, na granja, na favela… O rádio é onipresente como veiculo ágil e de credibilidade e tem grande função social nos dias de hoje.

Ainda se indaga: que espécie de democracia é essa? Democracia é se comunicar com todos, especialmente com os independentes e isentos de seu poder, pois estes podem alertar no devido tempo a possibilidade de equívocos que trazem consequências danosas. Como se chama quem fala e aceita só o que vem do grupo que lidera? A maioria responderá que é ditador. Nesse sentido, Fidel Castro era o melhor dos melhores. Todos a volta dele diziam ser ele um superdotado, amado a ponto de ficarem horas e horas ouvindo-o discursar. Quem pensasse diferente nem se expressava, pois um outro lado não existia. Parece igual o venezuelano Nicolas Maduro, que está ali com os ouvidos de prontidão apenas para os seus, rodeado por bajuladores mamadores do poder.

Evidente, no Brasil ainda estamos distantes desses exemplos, mas semelhanças de atitudes ficam próximas. Imaginem uma prefeitura governada e fechada ao grupo de admiradores do prefeito, blindando-o da realidade dura do lado de fora? Imagine o gestor de uma grande empresa usando viseira de cavalo e só comunicando com os seus subordinados que o agradam acima de tudo? Não precisa pensar muito: vai acabar caindo da cama e do conforto quando menos esperar.”

Por Editorial Jornal Troca-Troca – 05/04/19