EDITORIAL – Futuro do Brasil em jogo: Lava-Jato não pode parar
“Sem qualquer exagero a Operação Lava-Jato é o principal acontecimento do nosso País desde a redemocratização ocorrida em meados da década de 1980.
Para revigorar a esperança dos brasileiros em dias melhores, ela veio bater de frente com a corrupção que se tornara verdadeiro projeto de Estado se instalando nos municípios, estados, em Brasília, nas maiores empresas estatais e grandes empreiteiras.
A Lava-Jato colocou por terra uma cruel e desonrosa tradição centenária que vinha nos humilhando como Nação civilizada, de que só “ladrão de galinha” era alcançado pela Justiça e acabavam na cadeia.
Os ditos ricos e poderosos e os autores dos tais delitos do “colarinho branco” de uma forma ou de outra sempre acabavam absolvidos ou tinham seus crimes prescritos pela burocrática tramitação da justiça.
Por séculos tínhamos a impressão que cadeia era para os pobres e que a impunidade continuaria livre e solta entre nós.
A Operação começa a mudar essa visão deprimente ao fazer a Justiça chegar até aos mandachuvas dos três poderes da República, fazendo nascer um momento ímpar da nossa história. Vale acrescentar que corrupto não se mede pelo volume de dinheiro desviado ou recebido ilicitamente. Não importa se o roubo for de parte de salário de um funcionário ou oriundo de várias malas de grana por facilitação de grande negócio. São abjetos igualmente.
E, além disso, deu ânimo para que mais cidadãos se animassem a agir contra os corruptos que não param de roubar o dinheiro público que falta para a saúde, a educação, a segurança, o saneamento nem durante a pandemia que já ceifou mais de 100 mil vidas.
Nesta semana, por exemplo, o Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Vital do Rêgo Filho é denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro e dá razão a um ditado popular que diz que não devemos colocar a raposa para cuidar do galinheiro – eis que uma das funções do TCU é fiscalizar a boa aplicação do dinheiro público.
Com toda a pompa do cargo ele comeu bola ao presidir a CPI da Petrobras, em 2014, ainda quando era senador que apurava crimes cometidos nessa estatal. Ele recebeu R$ 3 milhões do empreiteiro Leo Pinheiro, da OAS, para que os executivos da empresa não fossem convocados para depor na CPMI e na CPI do Senado.
Neste momento, ao mesmo tempo em que a Lava-Jato segue operando com mais uma denúncia como essa do ministro Vital do Rego do TCU os brasileiros acompanham estranhos movimentos de alguns poderosos para torpedeá-la.
Sim, há muitos desses ditos homens públicos que se elegeram com a promessa de combater a corrupção e que agora estão querendo terminar, colocar um ponto final nessa Operação. O que se nota e cada dia vai ficando mais evidente, é que figuras tidas como de esquerda demonstram muita sintonia com figuras tidas como de centro ou de direita, quando se trata de liquidar com a Lava-Jato.
Isso não surpreende ninguém, pois nunca antes os interesses subalternos de tantos poderosos da política e da economia, foram tão prejudicados – em nome da ética, do direito, da moralidade – como ocorreu agora.
Ao completar seis anos e cumprir 70 fases a Lava-Jato tem números incríveis em busca dos corruptos poderosos: 1.343 buscas e apreensões, 130 prisões preventivas, 163 prisões temporárias, 118 denúncias, 500 pessoas acusadas, 52 sentenças e 253 condenações a 2.286 anos e 7 meses de pena. Além disso, foram propostas um total de 38 ações civis públicas. Mais de R$ 4 bilhões já foram devolvidos por meio de 185 acordos de colaboração e 14 acordos de leniência, nos quais se ajustou a devolução de cerca de R$ 14,3 bilhões. E tudo envolvendo quem se achava acima da Justiça.
Desse modo, quando olhamos para o passado recente não há nenhum exagero em dizer que o futuro do Brasil está em jogo se a Operação Lava-Jato não seguir adiante de forma firme e forte na ofensiva contra a impunidade dos poderosos.”