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Geral

Editorial: extremismos ideológicos nada constroem de útil

Públicado em Por RD Uirapuru / Redação Uirapuru

“O extraordinário avanço tecnológico dos últimos 50 anos, com volume de dados sem precedentes na história, criou entre nós, por estranho que pareça, clima intelectual onde cada um tem certeza absoluta sobre tudo e não suporta quem ousa pensar diferente. Verdade é só aquilo que quero ouvir. Caminhamos para uma espécie de pasteurização?

Vivenciamos a simplificação como dogma: esquerda ou direita, gordo ou magro, alto ou baixo, preto ou branco, largo ou estreito, claro ou escuro, feio ou bonito, norte ou sul – por aí andamos espargindo tola sabedoria edificada no extremismo ideológico que absolutamente nada produz de útil aos indivíduos e à sociedade.

O Brasil polarizou e o bom senso, o senso comum, a salutar capacidade de ouvir, a subjetividade, o relativismo de alguns conceitos, foram remetidos às favas e hoje todos têm absoluta certeza sobre o que diz e pensa e sai da frente quem discordar. E nisso está o fertilizante eficaz para fortalecer o fanatismo, que nada mais é do que a cegueira que toma conta de nosso modo de nos mover.

Neste momento crucial (perturbado sem possibilidade de traçar rumo com a mínima segurança pela pandemia) o fanatismo quer nos obrigar, por exemplo, amar ou odiar visceralmente o Lula ou nos obrigar a amar ou odiar visceralmente o Bolsonaro. Ficou desse jeito para os extremistas ideológicos que vão ampliando seguidores: verdade é aquilo que eu digo. Foi assassinada a possibilidade de um ou outro ter feito algo positivo, está definitivamente provado que ambos só fizeram besteiras ou só acertos!

Os efeitos dessa falta de equilibro ao abordar os fatos do dia são danosos em todos os segmentos da sociedade, inclusive em sala de aula e nos meios de comunicação social.

Todo professor é parcial, todo jornalista é parcial. Será? Um veículo de comunicação social – revista, rádio, jornal, TV – está fadado de ser avaliado por esta visão dicotômica e vai do inferno ao paraíso em questão de segundos. Uma empresa da área da comunicação, por exemplo, não tem vida longa sem ter e merecer a confiança do ouvinte/leitor. Claro que todos erram, mas quem foge da verdade desaparece cedo – mas hoje aquele que não ouve/lê o que deseja, independente dos fatos, se sente no direito de ofender, atacar, denegrir.

Sepultamos a velha sabedoria chinesa que dizia que quando se troca uma maçã por outra ficamos apenas com uma maçã e quando trocamos uma ideia por outra ficamos com duas e a possibilidade de formular uma terceira ideia.

Nós do Grupo Uirapuru operamos com sucesso há quase 4 décadas graças a credibilidade conquistada por nossa conduta editorial, empresarial, bem como de seus gestores que são daqui, vivem o dia a dia desta cidade e de seus habitantes. A cidade e a região nos conhecem e ainda assim surgem elucubrações desvairadas nas redes sociais jogadas por elemento desconhecido, figura “A” ou “B”, e ali passa ser verdade, como se tivesse fundamento e é propagado sem que o leitor raciocine, reflita.

São as famosas penas ao vento. Só porque quem lê é simpático a determinada tese, sequer checa veracidade ou olha o contexto e vai em frente assumindo tudo como real. Às vezes sequer leu até o final determinada exposição, só absorve e se ilude com o que pensa ser real e sai contaminando com ideia equivocada e até ofensiva a quem convive. E daí vem as adversidades, rivalidades que temos visto fortemente desde a última eleição. Isso gera perplexidade em quem viveu social e educadamente com conterrâneos que tinham pensamento oposto.

O que há agora para ter como inimigo quem pensa diferente? Onde foi nossa tão buscada democracia? Ou democracia existe só para quando tudo estiver satisfazendo minha vontade, concordando com meus pensamentos? A Justiça só é válida se decidir ao meu favor, senão é conspiração, são forças ocultas inimigas?

Para onde foi nossa civilidade, humanidade, benemerência, com os diferentes, os mais fracos, menos cultos, menos ricos, mais ricos, mais gordos, mais baixos?

Definitivamente extremismos ideológicos – de esquerda ou direita – não conseguem construir absolutamente nada de útil para o indivíduo e para a sociedade. Se pensássemos sempre da mesma maneira, se não houvesse visões de mundo diferentes com certeza ainda estaríamos morando em cavernas…”