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Jornal TROCA-TROCA

Editorial do TROCA-TROCA dessa semana aborda sobre perda da privacidade na era digital

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

A ficção se torna uma dura realidade: matamos e enterramos a privacidade

A ausência de privacidade que afeta a sociedade brasileira do terceiro milênio nos remete ao ano de 1949 quando o escritor britânico Eric Arthur Blaier, conhecido como George Orwell publicou seu best-seller “1984”, livro que faz alusão “a um mundo em que tudo seria vigiado, como se os habitantes vivessem num programa similar ao Big Brother Brasil (BBB) da atualidade”.

“1984” tinha ditadura como pano de fundo e o que está posto hoje vigora numa democracia onde aconteceu uma revolução na sociedade, na vida pessoal de cada um de nós no

mundo inteiro. É tudo tragicamente muito simples: a sagrada privacidade, ou seja, o direito à reserva de informações sobre nossa vida pessoal e familiar, o direito de ser deixado

em paz, na visão do jurista americano Louis Brandeis, vive um momento de derretimento assustador.

Agora o cidadão não consegue mais andar em lugar algum sem ser monitorado, vigiado, policiado, filmado, fotografado, perseguido, denunciado por alguém que, em regra, se esconde covardemente por trás da tecnologia. Até para bandido a coisa apertou, pois câmeras de reconhecimento facial mostram onde passou ou está no momento.

Hoje esse celular que nos acompanha entrega a localização da pessoa esteja onde estiver, o número qualquer um consegue e o golpista ligando desenfreadamente nos leva a inclusive a deixar de atender as ligações. Os dados de cada um de nós, parece que voam pelos ares a mercê de cada malandro que devassam nossas vidas impunemente.

A quantia de pessoas caindo na malha de golpistas só tem aumentado pois nossa boa-fé demora para desconfiar de quem que liga para nosso telefone e com fala mansa vai nos envolvendo como se fosse alguém conhecido, algum amigo. Este mercado tornou-se o novo filão do crime, pois, se pegos não dá em nada. Semelhante a do conto conto do bilhete.

Caso preso na mesma semana está solto. A migração está atraindo até mesmo assaltantes, homicidas, assaltantes de carro-forte e bancos; uma vez que podem faturar muito por dia, não correrem risco de morrer em um embate e prisão de poucos dias caso flagrados. 

Viraram todos profissionais, empresários do crime; agradecidos por demais a chegada destas tecnologias e facilitação proporcionadas por informações vindas de governos. Esse clima perverso leva as autoridades a instituírem a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) promulgada no Brasil em 14 de agosto de 2018 e entrou em vigor em setembro de 2020. Claro, pouco ou nada adiantou, foi mais uma lei para encher livros, códigos, compêndios, mas que, como outras não entra em prática e ninguém respeita, ainda que punições estejam ali postas…

Essa situação terrível tem faceta hilariante, eis que ninguém escapa da maldade, pois até para o malandro, o playboy, o galanteador, o dom Juan, o pegador está sob vigilância. Até fugir com mulher alheia vira problema, pois vai ser denunciado, inclusive por que não há rua, bar, hotel, casa de encontros sem câmera ou filmando no celular.

Também no mundo dos negócios tal barbaridade cria inconveniências. É o caso, por exemplo, do representante comercial que trabalha recebendo ligações de potenciais clientes. Esse empresário precisa atender qualquer número estranho, é a rotina que determinou para seus negócios, e ele vai se estafando, tendo prejuízos com esses verdadeiros criminosos.

Entretanto um número crescente deles já não consegue vencer as ligações abusivas de bancos, lojas, advogados e de presidiários infernizando sua rotina. Há uma conspiração geral de vazamentos de nossos dados seja através de bancos ou instituição que temos relacionamento e especialmente via cadastros vazados de órgãos públicos (até por uma minoria de maus funcionários), seja do INSS, Receita Federal, Receita Estadual e outros incontáveis locais, pois sabem coisas a nosso respeito que até a gente desconhece.

Onde vai parar isso? Ninguém sabe. Será tal transgressão e até violência outro novo normal? Libertinagem desvairada tudo em nome de liberdade de expressão é “o canal”? Como saber? Trata-se de algo complexo porque envolve postura estapafúrdia de cada indivíduo que o Estado ainda não sabe o que fazer. Até porque se houvesse total respeito à lei não estaríamos nesse caos…

Infelizmente é mais um mau uso da tecnologia e inovações criadas para fins positivos e melhoria de vida. Pior, ainda não se vislumbra como encarar e solucionar essa insanidade!