Editorial do Jornal Troca-Troca: O frio que castiga e mata: realidade cruel dos moradores de rua
O frio tá aí — e não é um frio comum. Os dias que estamos vivendo mostram que essa friaca está fora do normal, fora dos padrões típicos, que já são rigorosos no nosso inverno gaúcho. As temperaturas negativas, históricas, registradas nesta semana tem chamado a atenção de todo o Brasil. No ano passado, o grande destaque no Rio Grande do Sul foi o excesso de chuva. Este ano, é o frio intenso.
Existe um lado do inverno para parte da nossa sociedade de imagens bonitas, ambientes aquecidos, comida quentinha e uma cama confortável para dormir. Paisagens que
registram a beleza do inverno com campos brancos de geada e até neve em alguns locais. O chimarrão, o vinho, a sopa de capelleti e até aquela bergamota no sol. Esse lado lúdico,
quase poético, realmente encanta.
Mas existe o outro lado. O lado de quem sofre com esse frio. Pessoas que não têm como se agasalhar, que não têm o que comer, que estão nas ruas em busca de uma sopa, um casaco, um sapato — qualquer tipo de doação. Essa é a face mais perversa do frio. Enquanto a maioria de nós busca o conforto dos cobertores e do aquecimento, uma parcela quase invisível da nossa sociedade enfrenta uma batalha diária pela sobrevivência: os moradores em situação de rua. Para eles, o frio não é apenas um incômodo, mas uma ameaça silenciosa e mortal, que revela a face mais cruel da desigualdade social e da indiferença.
E não são raros os casos de pessoas que morrem de hipotermia nas ruas. Nesta onda de frio mais recente já tivemos três casos aqui no RS (duas mortes em Porto Alegre e uma
na Serra, em Bento Gonçalves). Essa realidade, que se repete anualmente, é um lembrete doloroso de muitos que vivem a margem da sociedade. É de conhecimento que a questão dos moradores de rua é complexa, envolvendo desde problemas de saúde mental e dependência química até a falta de oportunidades e o desamparo familiar. No entanto, em meio a essa complexidade, a necessidade básica de um teto e de proteção contra o frio é a mais urgente e imediata.
No calor, a gente ainda se vira. Mesmo os moradores de rua conseguem encontrar abrigo embaixo de uma marquise, tomar água, ter um alimento. Sempre tem alguém que ajuda. Mas o frio é diferente. O frio dói mais, ele afeta diretamente a saúde, castiga os idosos, judia das crianças — e, principalmente, é cruel com os mais vulneráveis. Sabemos dos esforços das autoridades públicas municipais em abordar essas pessoas e encaminhá-las para a rede de acolhimento, que aqui conta com albergue, comida, banho e uma cama com coberta para dormir. Até o cachorro, que não raro acompanha essas pessoas também são acolhidos.
Quem já acompanhou uma abordagem que a Ronda Social realiza sabe que muitas vezes os agentes são recebidos com agressividade, por aqueles que se negam e não querem sair de onde estão, arriscando a própria vida em noites extremamente geladas.
E então o que fazer? Deixar na rua para que morram? Recolhe-las compulsoriamente, obrigando-as a ir para o local devidamente preparado para ampará-las? É uma questão
difícil. Se de um lado existe a liberdade do indivíduo, que permite que permaneça em um local que é público, por outro existe o risco real de morte. Muitos acreditam que é inaceitável que a regra da liberdade possa ser maior do que a vida.
O que adianta deixar aquela pessoa ali, para ela morrer? Não são raros os casos em que os moradores em situação de rua estão nesta condição agravada pela dependência química, pelo álcool e não possuem condição de decidir o que é o melhor. O certo seria recolher, sim. Levar essas pessoas para um lugar quente, onde possam se proteger. Não podemos nos acostumar com a imagem de corpos encolhidos nas calçadas, tentando se proteger do vento gelado com papelões, uma coberta insuficiente e parcos pertences.
Sabemos que ninguém está na rua porque quer, porque gosta ou acha aquilo bom com zero grau ou ainda muito mais frio que isso. Muitos desses indivíduos estão nas ruas porque passaram por traumas, porque foram expulsas de casa, abusadas, maltratadas, muitas se envolveram com drogas, perderam vínculos familiares. São histórias que a gente nem
imagina viver.
Então, apesar de parecer óbvio que o certo é recolher, é preciso de alguma forma entender e não julgar quem recusa — porque a gente não sabe a dor que aquela pessoa carrega.
Mas, da mesma forma é preciso encontrar uma maneira mais eficaz que “no convencimento” tentar tirar essas pessoas do seu mundo, que são as ruas, e protegê-las nesses momentos de calamidade extrema.