Editorial do Jornal Troca-Troca desta sexta-feira (19): Orgulho de ser gaúcho
O mês de setembro, é ao mesmo tempo um período de reflexões sérias e engraçadas no Rio Grande do Sul. É um período também de várias dualidades, afinal, nós gaúchos começamos a guardar pesados casacos que nos aqueceram do rigoroso inverno, e saímos alegres para as ruas curtindo as temperaturas elevadas que deixam nosso Estado mais bonito e colorido, não apenas pelas flores primaveris, mas também pelos trajes tradicionalistas do nosso povo, seja ele o vestido da prenda ou as bombachas pregadas do peão. Ele é um mês engraçado, pois primeiro celebramos a união do nosso Brasil através da Proclamação da Independência (7 de setembro), porém, poucos dias depois, celebramos uma guerra que travamos contra esse mesmo Brasil. Mas ressalta-se também que é uma época de profundos acontecimentos que merecem análise consciente.
A chamada “epopéia farroupilha”, ou o “decênio heróico”, ou a “Revolução Farroupilha”, ou a “Guerra dos Farrapos”; foi um conflito violento e que manchou de sangue os campos do nosso Rio Grande do Sul, principalmente na metade sul do Estado. Esse conflito durou 10 anos e teve início na madrugada do dia 20 de setembro de 1835, quando estancieiros gaúchos, cansados da opressão que o governo regencial exercia na época, derrotaram tropas imperiais e ocuparam Porto Alegre no amanhecer da capital. Esse conflito que colocou frente à frente brasileiros, findou apenas em 1845, com a assinatura do tratado de Poncho Verde. Terminava oficialmente o mais longo conflito interno em nosso País.
Até hoje, a Revolução Farroupilha causa algumas polêmicas entre certos grupos com ideologias mais radicais. Se por um lado os tradicionalistas celebram esse episódio como um grande feito, do outro lado, certos historiadores, o consideram uma guerra perdida. Perdida, pelo fato que o tratado ignorou a liberdade dos escravos que lutaram ao lado dos farroupilhas, sem contar o desastre econômico do nosso Rio Grande, bem como a falência de estancieiros, como é o caso do grande líder farroupilha, Bento Gonçalves, que morreu doente e em condições financeiras precárias. Por outro lado, o conflito também foi vencedor, afinal, os farroupilhas foram anistiados, oficiais foram integrados ao exército brasileiro e a produção gaúcha, principalmente o charque, foi protegido com tarifas alfandegárias.
As comemorações farroupilhas também causam certa discórdia entre esses grupos, pois enquanto uns consideram um resgate das nossas tradições, outros alegam que tudo não passa de um movimento recente, criado por uma pequena elite e que não representa o que de fato aconteceu. Independente das discordâncias, é inegável o papel do chamado grupo dos oito, quando em 1947, jovens estudantes, liderados por Paixão Cortes, criaram em Porto Alegre um departamento tradicionalista, que deu origem ao hoje chamado Movimento Tradicionalista Gaúcho. Esse feito, gerou no ano seguinte a fundação do primeiro Centro de Tradições, o 35 CTG na capital de todos os gaúchos. O grupo em questão, teve a coragem de resgatar a cultura gaúcha do passado, e numa atitude grandiosa, acenderam à primeira chama crioula, retirada do fogo simbólico da pira da Pátria, numa clara demonstração simbólica de união entre o Rio Grande do Sul e o Brasil.
Por fim, também é inegável que a Revolução Farroupilha foi uma manifestação de um povo, sim, liderado por estancieiros, mas que demonstraram seu descontentamento e lutaram por melhorias na qualidade de vida no Rio Grande do Sul. Numa época onde a palavra dita valia muito e a honra estava acima de qualquer coisa, os gaúchos foram grandes e mostraram a importância que temos no Brasil. Eram anos difíceis e sofridos, mas, bem diferente dos dias atuais, onde raramente manifestamos ou lutamos pelo interesse maior de todos, que é o bem comum. O que vemos na atualidade, são grupos ideológicos e partidários se digladiando em causa própria. Hoje, nossa luta não deve ser contra um governo opressor, e sim, uma busca constante da paz e união de um povo, unidade essa tão bem representada pelo fogo simbólico que dá origem a chama crioula. Que ao final deste 20 de setembro, ao apagar da chama crioula, possamos de fato refletir e buscarmos o fortalecimento desta irmandade, para que no próximo festejo farroupilha, possamos gritar aos quatro ventos o orgulho de sermos gaúchos e pertencentes à pátria brasileira.