“É inadmissível que a vida de um trabalhador seja perdida sem que ninguém seja punido”
O domingo, 19 de abril de 2020 foi marcado para sempre na família Amaral como a data que ceifou a vida de um jovem, interrompeu sonhos e trouxe a maior tristeza que se pode amargar no seio familiar: a perda precoce de um ente querido.
Gustavo Santos do Amaral, de 28 anos, natural de Santa Maria, engenheiro eletricista, estava uniformizado e usava um veículo da empresa que trabalhava quando foi confundido com um criminoso e morto durante abordagem a uma caminhonete que havia sido furtada na região.
Aquele domingo deveria ser um dia normal de trabalho para Amaral, que fazia a primeira viagem como chefe da equipe que era integrada por mais dois colegas que estavam em uma Fiat Doblo, porém bandidos em fuga com uma caminhonete roubada bateram no carro que era ocupado pelos trabalhadores e confrontaram a polícia na ERS 324 em Marau.

A equipe que trabalha com redes de alta-tensão ainda pediu para que os policiais não atirassem pois estavam trabalhando. Não foi o suficiente. Amaral foi atingido por disparos de arma de fogo efetuados por um policial e não resistiu aos ferimentos, morrendo antes de chegar ao hospital. Ele estava na cidade trabalhando na montagem de um transformador.
Gêmeo do engenheiro, Guilherme Amaral, conversou com a reportagem da Uirapuru e descreveu o irmão como um grande parceiro que foi seu colega desde a pré-escola até a conclusão da graduação em Santa Maria.
Era muito inteligente, trabalhador e esforçado”.
Guilherme contou que soube da morte de Gustavo através dos colegas que integravam a equipe que o irmão liderava e que inicialmente achava que se tratava de um acidente de trânsito já que ele estava sempre na estrada. “Quando ouvi que foram tiros pensei em assalto, por que quem usa arma para atirar e matar alguém é bandido e nunca a polícia. Depois comecei a entender a história”.
No dia 09 de setembro o Ministério Público decidiu por arquivar o processo contra dois dos policiais envolvidos e definiu que o autor dos disparos, agiu em legítima defesa putativa (imaginária).
Na família, segundo Guilherme, a decisão foi vista com espanto e tristeza. “O Ministério Público tem a missão de preservar e defender a vida. No caso do meu irmão ele foi na direção contrária” afirmou o gêmeo da vítima que ainda questionou se a decisão seria a mesma se tratasse do filho de um juiz, promotor ou delegado.
Ouça o que Guilherme disse sobre o arquivamento do caso
Para Guilherme Amaral isso se torna um precedente para todo o Brasil. “Eu fico triste por Marau, por que pode acontecer de novo no município. Poderão usar a legítima defesa imaginária para mascarar a incompetência e a falta de preparo de algumas pessoas e quem vai sofrer com isso é a população”, afirmou.
Quanto ao MP que entendeu que o policial militar agiu em defesa putativa ou imaginária, Guilherme classificou a decisão como descabida. “É uma besteira criada para defender a incompetência do Estado. Uma semana depois no caso do angolano em Gravataí, o MP falou que 34 tiros no carro onde eles estavam foi sem querer e não foi para matar”, comparou Guilherme, lembrando o caso de Gilberto Almeida e Dorildes Laurindo que foram baleados por policiais depois de uma perseguição ao motorista de um veículo que trabalhava para um aplicativo de transporte e que fugiu de uma abordagem policial em Gravataí.
Guilherme questionou a função do MP no Estado e no País e criticou a condução do inquérito policial. “Estão ali para fazer enfeite. A polícia civil fez uma piada, o MP outra e está todo mundo rindo junto. É inadmissível que a vida de um trabalhador seja perdida sem que ninguém seja punido. É um absurdo confundir um celular com uma arma”, disse.
Durante a conversa com a reportagem da Rádio Uirapuru, o irmão da vítima afirmou que o precedente aberto pelo Ministério Público não prejudicou somente a sua família. “Prejudica o Estado inteiro porque cria um precedente perigoso. Qualquer abordagem mal feita por incompetência poderá ser tratada como defesa imaginária”, explicou Guilherme.
É um perigo muito grande para a sociedade, precisamos enxergar isso”.
O irmão do engenheiro morto em Marau disse não querer generalizar, mas para ele a decisão do MP serve para mascarar a incompetência do Estado. “Tem bastante gente boa e competente, mas tem que saber separar o joio do trigo. Quem é bom, quem é honesto não vai ficar bravo comigo, mas vai até me agradecer”.
Guilherme afirmou ainda que acredita que seu irmão tenha sido morto por ser negro. “Meu irmão era negro e levou três tiros. Ele foi alvejado a queima-roupa e 75% das pessoas que morrem em abordagens policiais são negros”, disse à reportagem e afirmou ainda que qualquer pessoa pode passar pela situação que seu irmão enfrentou. “Eu sei que a maioria da população de Marau é de descendência europeia mas não estão livres. Nestes 25% pode ser qualquer um, e pelo jeito a vida humana não vale nada em certas regiões do Estado”, desabafou.
Guilherme Amaral questionou como agir durante uma abordagem e explicou que o irmão não tinha noção do que fazer. “Fico me perguntando quando um policial treinado começa atirar, o que a gente vai fazer? Vai ficar parado esperando levar um tiro?”, argumentou.
“Meu irmão não era treinado para fugir de tiroteio, ele era treinado para trabalhar”.
Segundo o irmão gêmeo do engenheiro, a família ainda não decidiu quais caminhos deve seguir após a decisão pelo arquivamento do processo. “Nosso advogado esta analisando qual a melhor decisão a ser tomada”, concluiu.