Dia do Historiador: Professor da UPF alerta para riscos do negacionismo e do mau uso da informação
O Dia do Historiador é celebrado em 19 de agosto, data escolhida em homenagem ao nascimento do diplomata e escritor Joaquim Nabuco. Apesar de recente no calendário nacional, a data abre espaço para refletir sobre a importância da história e dos profissionais que a estudam e ensinam, especialmente em um contexto marcado pelo excesso de informações e pelo avanço da inteligência artificial.
Em entrevista à Rádio Uirapuru, o professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) e doutor em História Adelar Heinsfeld avaliou que a abundância de informações, principalmente nas redes sociais, representa um desafio para a sociedade. Ele lembrou uma frase do filósofo italiano Umberto Eco, que dizia que o mundo digital deu voz a todos, mas ressaltou que a dificuldade atual está em filtrar os conteúdos confiáveis. Para o historiador, esse cenário exige cada vez mais criticidade na análise dos fatos.
Heinsfeld também apontou dificuldades no ensino de história nas escolas. Segundo ele, diferentemente de outras áreas do conhecimento, em que é necessário ter formação específica para ser reconhecido como profissional, no campo da história muitas pessoas se sentem autorizadas a opinar sem base acadêmica. Ele afirmou que esse fenômeno faz com que alunos muitas vezes deem mais crédito a informações de internet do que ao conteúdo apresentado pelos professores em sala de aula.
Ao tratar de fenômenos como o negacionismo histórico, Heinsfeld destacou que somente um professor bem preparado pode enfrentar o problema. Ele defendeu que o respeito ao historiador passa pelo reconhecimento de sua formação e de sua capacidade de analisar a realidade com base em conhecimento científico. O professor também mencionou que o ambiente escolar pode se tornar desafiador diante de ameaças e pressões externas, mas reforçou que a qualificação é o caminho para fortalecer a profissão.
Sobre o impacto da inteligência artificial, Heinsfeld afirmou que a ferramenta pode ser útil se utilizada com ética, mas alertou para os riscos do uso indevido. Ele relatou já ter recebido textos atribuídos a historiadores que, na verdade, foram produzidos por sistemas de inteligência artificial. Para o professor, essa prática configura crime e representa uma ameaça séria à produção de conhecimento histórico, já que deturpações e interpretações erradas podem ser difundidas com interesses específicos.
No âmbito local, o professor avaliou que Passo Fundo está em posição favorável em relação à preservação da memória. Ele citou o curso de História da Universidade de Passo Fundo, presente na graduação, mestrado e doutorado, além do trabalho desenvolvido pelo Instituto Histórico de Passo Fundo, pelo Arquivo Histórico Regional e pelo Museu.
Para concluir, Heinsfeld recordou uma frase do historiador inglês Peter Burke, segundo a qual a função do historiador é lembrar à sociedade aquilo que ela deseja esquecer. Ele reforçou que cabe ao profissional da área manter a vigilância sobre a memória coletiva, preservando acontecimentos e registros que contribuem para a compreensão do presente.