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Saúde

Demência e Alzheimer: Especialistas explicam sintomas, diferenças e a importância do diagnóstico precoce

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

 O envelhecimento da população brasileira é uma realidade. Com ele, cresce também a incidência de doenças crônico-degenerativas, como a demência. A mais comum delas, o Alzheimer, ainda gera muitas dúvidas e estigmas. Em uma conversa esclarecedora no Programa Sem Segredo, da Rádio Uirapuru, especialistas explicaram as diferenças, os sintomas e, principalmente, a importância do cuidado e da prevenção. Até 1940, a expectativa de vida no Brasil girava em torno dos 45 anos. As pessoas morriam, popularmente, “da idade”, vítimas de doenças infectocontagiosas. Hoje, o cenário é outro. Atingimos idades mais avançadas, mas isso trouxe um novo desafio: as doenças crônico-degenerativas, com destaque para as síndromes demenciais.

Mas afinal, o que é envelhecer com saúde e o que é sinal de doença? A principal mensagem deixada pelos especialistas é clara: não se pode normalizar os sintomas. “Ah, ele está esquecido porque é idoso” é uma frase que precisa ser abolida do vocabulário. O neurologista Dr. Cassiano Forcelini explicou que existem três situações possíveis na população idosa em relação à cognição:

Idoso com Preservação Total: Mantém a memória e as capacidades mentais plenamente. São objetos de estudo da ciência, que busca entender como chegam aos 90 ou 100 anos com tanta lucidez.

Comprometimento Cognitivo Leve: É o “idoso normal” e um pouco esquecido. Ele tem dificuldade com a memória recente e para aprender coisas novas, mas mantém todas as suas outras funções e sua autonomia. Cerca de 10% dos casos de CCL podem evoluir para demência a cada ano, mas a maioria permanece apenas com esse leve esquecimento.

Demência: Aqui o sinal de alerta é mais grave. A pessoa não apenas esquece, mas começa a “desaprender”. Ela perde a capacidade de fazer coisas que antes dominava, como dirigir, cozinhar, tricotar ou operar o controle remoto. Somam-se a isso alterações de comportamento, distúrbios do sono, desconfiança (paranoia) e delírios, como achar que estão roubando seus pertences. A demência é um conjunto de sintomas, e o Alzheimer é a causa mais comum (principalmente em idosos mais velhos), seguido pela demência vascular, prevenível, causada por múltiplos pequenos derrames (AVCs) ou pelo acúmulo de danos nos vasos sanguíneos do cérebro devido a pressão alta, diabetes e colesterol descontrolados.

Prevenção: O Estilo de Vida é a Chave

Se o Alzheimer não é totalmente prevenível, a demência vascular sim. E as medidas para preveni-la são as mesmas para manter o coração saudável:

Controle os fatores de risco: Pressão alta, diabetes, colesterol alto e tabagismo.

Modere o álcool: Não há mais limite seguro para o consumo de álcool quando o assunto é a saúde do cérebro. Quanto mais, pior.

Proteja a audição: A deficiência auditiva leva ao isolamento social, um grande fator de risco. Evite exposição a sons altos (fones de ouvido, carros com som alto) e, se necessário, use aparelhos auditivos.

Mantenha-se ativo física e mentalmente: O sedentarismo e a inatividade mental após a aposentadoria são grandes vilões.

Cuidado com a medicação: O uso indiscriminado de medicamentos como Rivotril, Diazepam e Zolpidem aumenta o risco de demência.

Trate a depressão: A depressão crônica é um fator de risco relevante.

Dr. Cassiano faz uma analogia: “Atravessar na faixa não impede de ser atropelado, mas reduz o risco. Uma vida saudável não garante que não teremos Alzheimer, mas diminui muito as chances de desenvolver demência, especialmente a vascular.”

O Papel das Instituições e da Família

Quando a doença se instala, o cuidado se torna a peça central. O tratamento medicamentoso para o Alzheimer existe, mas atua apenas nos sintomas e não na cura. O que realmente faz a diferença é a qualidade do acolhimento. Luiz Costela, diretor da Fundação Lucas Araújo, observa uma mudança drástica no perfil dos idosos que chegam à instituição. “Antes dos anos 2000, eles chegavam mais independentes. Hoje, a maioria já vem em estágios avançados de dependência.” Na fundação, das 64 vagas para idosos, 43 são para aqueles com dependência em grau 3, que precisam de auxílio para quase todas as atividades diárias. Costela faz questão de desmistificar o antigo conceito de “asilo”. “É uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), um lugar de acolhimento, não de abandono.” A fundação promove atividades diárias com fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos, além de projetos intergeracionais, como o “Olhar de Menina”, que aproxima as crianças do lar vizinho das idosas, resgatando afetos e memórias.

A dor da família

A professora Lia Mara Wibelinger, fisioterapeuta e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Envelhecimento Humano da UPF, ressalta que a família também adoece. “Em uma demência, você perde um pouquinho daquela pessoa todos os dias. E o cuidador, muitas vezes, não é cuidado.” A negação da doença, a culpa pela institucionalização e a falta de informação são barreiras comuns. Segundo uma pesquisa da UPF em parceria com outras universidades, cerca de 70% dos idosos institucionalizados nas regiões estudadas apresentavam déficit cognitivo. A falta de estrutura familiar e de profissionais especializados em gerontologia no mercado de trabalho são desafios urgentes.

Tratamento, Novidades e Cautela

Para quem já apresenta sintomas, a orientação é procurar um serviço de saúde. O diagnóstico precoce é fundamental para descartar causas reversíveis (como deficiência de vitamina B12, apneia do sono ou efeitos colaterais de remédios) e para planejar o cuidado. Sobre as “vacinas” ou novos medicamentos para o Alzheimer que têm sido notícia, Dr. Cassiano é cauteloso. Ele afirma, primeiro, que não existe nenhuma vacina para o Alzheimer. Ele explica que existem novos anticorpos monoclonais (aprovados recentemente no Brasil) que atacam a proteína beta-amiloide no cérebro. No entanto, são tratamentos caríssimos, não disponíveis no SUS, e foram testados apenas em fases iniciais da doença, mostrando um benefício modesto em retardar a progressão, e não em curar. “Não é uma panaceia. É preciso muita cautela”, alerta o médico, que também classificou como “asneira” o uso de cannabis para essa finalidade.

O Futuro é Agora

A professora Lia reforça que o Brasil não está preparado para a inversão da pirâmide etária. Em 2050, a previsão é que para cada 100 adolescentes, tenhamos 179 idosos. “Vamos encontrar idosos em todos os lugares: no shopping, na igreja, no supermercado. Precisamos de profissionais habilitados e de uma sociedade mais empática e informada.”

O envelhecimento é um processo de lentificação, mas não de invisibilidade. Seja no aconchego do lar ou em uma instituição de longa permanência, o que a pessoa com demência mais precisa é de um olhar atento, de cuidado e, acima de tudo, de acolhimento. A informação, nesse contexto, é o primeiro e mais importante passo para um envelhecimento digno e saudável.