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Saúde

Defasagem de preços e aumento na demanda causam apagão em insumos para cirurgias cardíacas

Públicado em Por RD Uirapuru / Mateus Miotto
Defasagem de preços e aumento na demanda causam apagão em insumos para cirurgias cardíacas
Defasagem de preços e aumento na demanda causam apagão em insumos para cirurgias cardíacas

A pandemia foi uma emergência em saúde mundial, que por quase dois anos obrigou o direcionamento de recursos e esforços exclusivos para combater o vírus e salvar as pessoas.  Diferente de outras questões de saúde, que podem apresentar risco de morte, mas evoluem em meses ou até anos, o Coronavírus chegou com o poder de matar uma pessoa em poucos dias.

O Brasil foi um dos poucos países com um sistema de saúde público, o SUS, que fez frente ao vírus, mas com impacto secundário em toda a rede.  Por diversas vezes foi anunciado o iminente colapso do sistema nas capitais, mas a situação foi controlada graças ao direcionamento total da saúde brasileira nesta emergência.  Com este direcionamento e as pessoas evitando se deslocarem, problemas secundários de saúde foram praticamente deixados de lado.

Agora, a medida que a vacinação derruba os casos, as diferentes especialidades de saúde se deparam com uma verdadeira avalanche de pacientes buscando atendimento.  O caso mais gritante envolve a cardiologia e o problema é nacional.  A Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios, estima que ao menos 60 mil cirurgias cardíacas ficaram para trás desde a pandemia.  São cerca de 60 mil pacientes que precisam de uma intervenção no coração.

Na raiz do problema está a falta de insumos no mercado nacional disponível para o SUS. Sem materiais como válvulas cardíacas e outros componentes, o médico não tem como chamar o paciente para ser operado.  A Uirapuru conversou com o médico cardiologista, Dr. Luiz Sérgio Fragomeni, que confirmou o problema também em Passo Fundo.

A situação é ampla e envolve matéria-prima, válvulas, equipamentos para circulação enquanto se opera o coração, dentre outros.  Desde a pandemia estes materiais já estavam sendo entregues de maneira restrita em todo o Brasil, pela diminuição de produção.  Com o agravamento da pandemia a oferta caiu ainda mais no mercado nacional, chegando ao preocupante momento da falta.

 

O SUS é quem cobre os custos dos componentes para os hospitais, pois uma cirurgia cardíaca na rede privada é algo raro devido ao alto preço. O médico Luiz Sérgio Fragomeni explicou que, assim como quase tudo, os componentes cirúrgicos também dispararam em preços na pandemia.  A tabela do valor pago pelo SUS aos fabricantes está defasada.  Uma válvula cardíaca biológica, nacional, custa R$ 3.700, mas o SUS paga apenas R$1.500.

 

Segundo o Dr. Luiz Sérgio Fragomeni, a defasagem existe há anos, mas alguns fabricantes mantinham as entregas por retirarem lucros de outros segmentos das suas empresas, entregando os componentes quase que numa questão humanitária.  Porém, a disparada de preços tornou impossível para eles seguir vendendo os componentes a um preço bem inferior do que custa. O último reajuste de um kit circulação, no SUS, teria sido feito em 2002.

 

O doutor Luiz Sérgio Fragomeni explicou que há poucas peças para cirurgia sendo produzidas e, diante do preço muito baixo pago pelo SUS, o mercado nacional está vendendo para outros países ou para segmentos que pagarem o valor correto.  A solução, conforme o Dr. Luiz Sérgio, é o Ministério da Saúde fazer um reajuste de preços para garantir a entrega dos insumos de cirurgias cardíacas pelo SUS.  Frisou que ainda não se tem informações de óbitos em fila de espera aqui em Passo Fundo, mas o sofrimento é muito grande de quem fica meses em aguardo.

 

Atenta a este cenário e agindo antes que o problema se agravasse, a indústria de produtos e materiais médico-hospitalar para procedimentos de alta complexidade, através da sua Associação de Classe “ABIMO” – Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios, enviou uma carta ao então Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.  Na carta o ministro foi alertado sobre a defasagem de preços justamente nos componentes de cirurgias cardíacas e a necessidade de correção./ No entanto, um ano depois os valores seguem os mesmos.