Defasagem de preços e aumento na demanda causam apagão em insumos para cirurgias cardíacas
A pandemia foi uma emergência em saúde mundial, que por quase dois anos obrigou o direcionamento de recursos e esforços exclusivos para combater o vírus e salvar as pessoas. Diferente de outras questões de saúde, que podem apresentar risco de morte, mas evoluem em meses ou até anos, o Coronavírus chegou com o poder de matar uma pessoa em poucos dias.
O Brasil foi um dos poucos países com um sistema de saúde público, o SUS, que fez frente ao vírus, mas com impacto secundário em toda a rede. Por diversas vezes foi anunciado o iminente colapso do sistema nas capitais, mas a situação foi controlada graças ao direcionamento total da saúde brasileira nesta emergência. Com este direcionamento e as pessoas evitando se deslocarem, problemas secundários de saúde foram praticamente deixados de lado.
Agora, a medida que a vacinação derruba os casos, as diferentes especialidades de saúde se deparam com uma verdadeira avalanche de pacientes buscando atendimento. O caso mais gritante envolve a cardiologia e o problema é nacional. A Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios, estima que ao menos 60 mil cirurgias cardíacas ficaram para trás desde a pandemia. São cerca de 60 mil pacientes que precisam de uma intervenção no coração.
Na raiz do problema está a falta de insumos no mercado nacional disponível para o SUS. Sem materiais como válvulas cardíacas e outros componentes, o médico não tem como chamar o paciente para ser operado. A Uirapuru conversou com o médico cardiologista, Dr. Luiz Sérgio Fragomeni, que confirmou o problema também em Passo Fundo.
A situação é ampla e envolve matéria-prima, válvulas, equipamentos para circulação enquanto se opera o coração, dentre outros. Desde a pandemia estes materiais já estavam sendo entregues de maneira restrita em todo o Brasil, pela diminuição de produção. Com o agravamento da pandemia a oferta caiu ainda mais no mercado nacional, chegando ao preocupante momento da falta.
O SUS é quem cobre os custos dos componentes para os hospitais, pois uma cirurgia cardíaca na rede privada é algo raro devido ao alto preço. O médico Luiz Sérgio Fragomeni explicou que, assim como quase tudo, os componentes cirúrgicos também dispararam em preços na pandemia. A tabela do valor pago pelo SUS aos fabricantes está defasada. Uma válvula cardíaca biológica, nacional, custa R$ 3.700, mas o SUS paga apenas R$1.500.
Segundo o Dr. Luiz Sérgio Fragomeni, a defasagem existe há anos, mas alguns fabricantes mantinham as entregas por retirarem lucros de outros segmentos das suas empresas, entregando os componentes quase que numa questão humanitária. Porém, a disparada de preços tornou impossível para eles seguir vendendo os componentes a um preço bem inferior do que custa. O último reajuste de um kit circulação, no SUS, teria sido feito em 2002.
O doutor Luiz Sérgio Fragomeni explicou que há poucas peças para cirurgia sendo produzidas e, diante do preço muito baixo pago pelo SUS, o mercado nacional está vendendo para outros países ou para segmentos que pagarem o valor correto. A solução, conforme o Dr. Luiz Sérgio, é o Ministério da Saúde fazer um reajuste de preços para garantir a entrega dos insumos de cirurgias cardíacas pelo SUS. Frisou que ainda não se tem informações de óbitos em fila de espera aqui em Passo Fundo, mas o sofrimento é muito grande de quem fica meses em aguardo.
Atenta a este cenário e agindo antes que o problema se agravasse, a indústria de produtos e materiais médico-hospitalar para procedimentos de alta complexidade, através da sua Associação de Classe “ABIMO” – Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios, enviou uma carta ao então Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Na carta o ministro foi alertado sobre a defasagem de preços justamente nos componentes de cirurgias cardíacas e a necessidade de correção./ No entanto, um ano depois os valores seguem os mesmos.