Toda criança tem que ser criança: saudade do nosso tempo de criança
Quando éramos crianças nossos brinquedos eram diferentes de hoje, ganhávamos bonecas, carrinhos, bolas e era uma festa na vizinhança. Quando um ganhava uma bicicleta o dia não acabava, ficávamos lá fora cada um dando uma voltinha, as mães ficavam conosco para não deixarmos destruir a bicicleta antes da hora.
E os carrinhos de rolimã em plena descida, as pernas já não doíam mais quando ralava. Já era comum na nossa infância. Com o calor intenso comprar geladinho com as moedas que sobravam do pão pela manhã. Pedir água na vizinha com a casa perto. Coisas que a nossa infância deixou para trás e os de hoje não conhecem, infelizmente.
As bolinhas de gude, elas eram o fenômeno da época. Um dia apanhei na rua, pois eu ganhei uma lata cheia dos meninos e isso feriu o brio deles. Tomei tapas na cabeça mas voltei para casa com a lata cheia e feliz da vida. Claro que não me deixaram jogar por um tempo, mas depois nos acertamos.
Infância também era sinônimo de compromisso com o trabalho da casa com as mães, aprendíamos a cozinhar, lavar, passar e cuidar dos terreiros que era a parte principal da infância. Hoje nem terreiros mais se tem. Poucas crianças hoje em dia infelizmente conhecem pé de jabuticaba, cair do pé de goiaba, pé de manga, se lambuzar com amoras pretas e doces, pé da banana pendurada no alpendre esperando amadurecer. Quando íamos na casa da vovó, ela fazia linguiça e pendurava em cima do fogão a lenha para secar e pegar fumaça.
Nós levantávamos a noite para comer escondido, fazíamos churrasquinho em lata de sardinha, fora outras e outras peripécias. O papagaio ou pipa não continha cerol, então podíamos brincar a vontade. Chorava quando alguém derrubava o meu enroscado no outro. Quando quebrava. Estamos em uma nova fase infantil, não brincamos na rua, o que se perdeu muito de amizades na vizinhança. Não brincamos de bola no quarteirão, pois os carros não param de passar. Nem podemos esticar redes de uma casa a outra, pois o vizinho, não aceita que usemos a sua grade. Brigávamos com as outras crianças por bobagem mas no outro dia dividíamos o lanche na escola.
As crianças precisam voltar a ser criança, brincar de bolinho de barro depois da chuva. Dançar na chuva fria e nem se preocupar com a gripe. Comer frutas escondido do lote do vizinho, mesmo ele sabendo e nós achando grande coisa estar comendo escondido. Tirar laranja e bergamota no galho mais alto, com todo perigo de cair, mas quem é que teria tanta habilidade como nós crianças para tal aventura?
Quando o vídeo game chegou, eu já era adolescente, mas mesmo assim não nos encantou a ponto de não irmos para a rua nos divertir, comer batata doce assada nos gravetos. Depois ele foi tomando o lugar da rua, a rua sendo inundada por meninos maus que já estavam aprendendo golpes de fliperamas.
Quanta saudade! Hoje, meu filho é criado em um muro de 6 metros, nem rua vê. Não podemos deixar brincar na rua, nem passeio e muito menos frequentar a casa do vizinho. Tenho pena dessa geração infantil. Ainda podemos deixar um grande espaço de lote nos fundos de casa, onde tem várias frutas plantadas e ele tem esse acesso, mas é a minoria. Amiguinhos dele não têm coragem de pisar na terra, medo de machucar. Não sabem o que perdem, vivem na selva de pedra dos prédios, enclausurados em seus ricos e belos apartamentos e não sabem de onde
vem o leite, o doce e muito mesmo as frutas. Alguns nem gostam de frutas, pois elas são sem gosto quando compradas no mercado.
Nesta semana vale lembrar cada marca da perna, cada deliciosa viagem de trem, cada passeio de carro com meu pai. Cada um tem a infância que lhe cabe, mas que a nossa geração pegou a melhor parte isso não tem dúvida.
*Texto encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo.