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Ponto e Contraponto: “O povo pelo povo!” Será mesmo?

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Quando o Rio Grande do Sul enfrentou a pior catástrofe climática de sua história, houve uma mobilização coletiva sem precedentes. Pessoas de diversos pontos do país se deslocaram para auxiliar no resgate de vítimas, doar e acolher os necessitados. Nesse cenário, surgiu uma narrativa oportunista, respaldada por milhares de fake news, a do “povo pelo povo”, insinuando a ausência do Estado. Refira-se aqui a todas as esferas do Estado: municipal, estadual e federal, incluindo os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Essa narrativa, obviamente, não se sustenta nem mesmo entre seus defensores. Por trás dela, está a velha discussão ideológica do Estado mínimo, que prega a menor interferência estatal na economia.

Estado mínimo

Passados vários dias desde o início da tragédia, cujos efeitos ainda serão sentidos por muitos anos, o ímpeto inicial de ajuda e solidariedade perde fôlego. E isso é natural. O “povo pelo povo” não se sustenta por muito tempo. As pessoas têm suas próprias vidas, compromissos e desafios. O que resta agora, senão a ajuda do Estado? E um Estado mínimo poderia ajudar? Por que o Estado deve estender a mão àqueles que sempre defenderam sua diminuição?

Estado eficiente

Numa tragédia como esta, o Estado, em sua integralidade, é quem estende a mão para reerguer os caídos. Não sairemos desta crise sem ajuda. O Rio Grande do Sul precisa de todos os programas e projetos possíveis para atender desde as pessoas mais humildes, que perderam tudo, até o grande empresário cujo negócio foi afetado. Neste momento, não precisamos de um Estado mínimo, mas de um Estado eficiente.

Direitos e deveres

“O povo pelo povo” deve transformar-se em povo vigilante, conhecedor de seus direitos, ciente das atribuições do Estado e consciente ao escolher seus representantes. Deve mobilizar-se para exigir e cobrar o que lhe é de direito, e fazer sua parte na construção de um Estado que não seja nem mínimo, nem máximo a ponto de privilegiar poucos, mas capaz de responder rápida e eficazmente quando necessário. Mais do que isso, o Estado tem a obrigação de se antecipar, prevenindo e mitigando ao máximo os efeitos de tragédias como esta.

Solidariedade e direitos

A solidariedade é sempre bem-vinda em qualquer momento difícil. Não se trata de dispensá-la ou subestimá-la, mesmo com a atuação firme do Estado. Mas a solidariedade não substitui direitos. Devemos fazer valer nossos direitos conforme prerrogativa da nossa Constituição: todo cidadão brasileiro tem direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. A inviolabilidade desses direitos é a garantia de que a relação entre o indivíduo e o Estado se mantém intacta, junto ao Estado Democrático de Direito.

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