O silêncio do outro já é um limite e não devemos atravessar
O silêncio do outro delimita geografia: diz até onde posso ir sem ferir, até onde meu gesto alcança sem tomar o que não me foi entregue. Há dias em que a melhor conversa é um copo de água deixado na mesa. Há afeto em não perguntar, em não exigir relatos, em não transformar a dor alheia em espetáculo para a nossa curiosidade. A escuta começa antes da palavra; começa quando aquietamos as próprias urgências.
Quem respeita o limite do silêncio não abandona. Permanece sem invadir. Oferece espaço e companhia, como quem acende uma luz no corredor e espera. Às vezes o outro precisa atravessar a noite sozinho para descobrir que consegue. Às vezes precisa saber que, se chamar, haverá uma mão estendida. Em ambos os casos, a dignidade é preservada.
Filosoficamente, o silêncio é linguagem. Ele afirma que a interioridade existe e pede tempo. Reconhecer essa soberania é um ato de justiça: cada ser é um território. Não posso colher a flor antes da primavera. Não posso apressar o broto com discursos. Meu papel é cuidar do clima: menos julgamento, mais calor, menos pressa, mais paciência.
Também temos o nosso próprio silêncio. Quando o reivindicamos, descobrimos que dizer “agora não” pode ser uma forma de amor por todos. Porque o que nasce do excesso de ruído vem frágil; o que amadurece no recolhimento sustenta.
Por @diarioespirita1