Morar em si é aprender a ser abrigo
A tartaruga, com sua casa às costas, olha o peixe deslizando na imensidão da água e diz:
— Deve ser incrível morar numa casa enorme.
Ela imagina espaço, liberdade, horizontes líquidos onde tudo flui.
O peixe, silencioso por um instante, observa a tartaruga carregar o mundo consigo e responde:
— Deve ser lindo morar em si.
Ele vê algo que a tartaruga não percebe: a arte rara de ser seu próprio abrigo, de ter sempre um lar, mesmo quando o mar está agitado.
Esse diálogo revela uma verdade profunda, cada ser olha para o outro e admira aquilo que lhe falta.
O que tem espaço deseja raiz.
O que tem raiz deseja espaço.
A tartaruga anseia por amplitude, o peixe admira autonomia.
E ambos estão certos: a vida é esse desejo de equilíbrio.
Somos tartaruga e peixe ao mesmo tempo,
carregamos nossas histórias, mas também ansiamos por mergulhos maiores.
Queremos ser casa e oceano.
A sabedoria está em perceber que a beleza não está no tamanho da casa nem na vastidão do mar,
mas na paz de saber habitar-se.
Morar em si é aprender a ser abrigo.
Nadar no mundo é permitir-se expandir.
Quando a alma descobre que pode ser ambos,
ela encontra o lar que sempre buscou.