Cemitério Vera Cruz é museu a céu aberto que conta a trajetória e a memória do município
A paisagem urbana de Passo Fundo guarda em seus cemitérios um capítulo fundamental de sua história, que se entrelaça com o desenvolvimento da cidade, políticas de saúde pública e a memória de sua gente. O Cemitério Vera Cruz, hoje uma área nobre da cidade, é na verdade o ponto de partida dessa narrativa. Antes do Vera Cruz, a cidade possuía dois cemitérios. O primeiro era um cemitério católico, localizado ao lado da antiga Igreja Matriz. Com a relocação da matriz para sua localização atual e o projeto de se estabelecer uma catedral para abrigar uma diocese, a relação com esse espaço sagrado se transformou. O segundo cemitério, era destinado à população não-católica, situado onde hoje se é Campo do Fradolino Chimango. O programa Sem Segredo apresentado neste sábado pelo professor Maurício Paim, teve a presença de dois historiadores: Djiovan Carvalho, presidente do Instituto Histórico e Gizelle Zanotto, coordenadora da Pós Graduação em História e do Arquivo Histórico Regional da UPF.
Segundo Gizele, a inauguração do Cemitério Vera Cruz em 1902 marcou uma virada. Ele foi o primeiro cemitério público constituído na parte que hoje é o espaço urbano de Passo Fundo e nasceu da remoção dos restos mortais dos dois cemitérios anteriores. Essa iniciativa fazia parte de uma política sanitarista mais ampla, comum no período, que visava afastar os “campos santos” dos núcleos urbanos em crescimento.
No entanto, a motivação não era apenas sanitária, mas também estética e ligada ao progresso, explicou Djiovan Carvalho. Com o anúncio da construção da ferrovia, o desenvolvimento da cidade começou a se deslocar para a região do atual centro. O antigo cemitério, que ficava a menos de 200 metros de onde seria construída a estação ferroviária (a atual Gare), tornou-se um problema. A primeira imagem que os visitantes teriam ao chegar de trem em Passo Fundo seria a de um cemitério. Para uma cidade que aspirava ao crescimento e modernidade, era necessário um novo local, distante do centro populacional da época, que não ultrapassava a Praça da Tamandaré.
Assim, em 1897, a Intendência Municipal desapropriou uma área pertencente ao Barão Antônio José da Silva Loureiro. Este espaço, afastado e que permitiria a expansão, se tornou o Cemitério Vera Cruz, o primeiro cemitério laico da cidade, refletindo o período Republicano. Não houve uma cerimônia formal de inauguração, mas seu marco simbólico ocorreu em novembro de 1902, com o sepultamento do padre José Ferreira Guedes, embora já houvesse outros enterrados ali. A história do primeiro cemitério de Passo Fundo consta de um livro publicado em 2018, chamado A Morte Não é o Fim, juntamente com um guia, como explica Djiovan:
Para além de sua função original, o cemitério é hoje entendido como um “museu a céu aberto”. Projetos como o que resultou no livro “A Morte Não é o Fim” buscam incentivar um novo olhar sobre esse patrimônio. Através do estudo de epitáfios, da simbologia da estatuária, da educação patrimonial e da história dos que ali repousam, o cemitério se torna uma ferramenta para contar a própria história de Passo Fundo. Em uma cidade viva e em constante transformação, onde referências históricas se perdem com a expansão urbana, o cemitério preserva marcas e biografias que permitem conectar gerações.
Cada túmulo, desde os de figuras ilustres até aqueles com lapidas simples ou fotografias desbotadas, é uma página do caderno de memórias da cidade. Visitar o Vera Cruz, portanto, é muito mais que uma homenagem aos antepassados; é uma viagem pela história viva de Passo Fundo, um espaço de cultura, arte e reflexão que se renova a cada descoberta. Hoje, o Vera Cruz é parte de um complexo de cemitérios, formado pelo cemitério municipal, um cemitério privado, um cemitério israelita e o Memorial, configurando um bairro dedicado à memória dos passo-fundenses.
Visita Guiada
No próximo sábado, dia 8, o Projeto Museu a Céu Aberto do Arquivo Histórico Regional e Instituto Histórico de Passo Fundo, fará uma visita guiada no Cemitério Vera Cruz. A saída está programada para às 9h da entrada antiga (junto às Capelas). Em caso de chuva o passeio será cancelado