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Polícia

Beltrame: cadeia lotada é melhor do que presos nas ruas

Públicado em Por RD Uirapuru / Redação Uirapuru
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Atuando há 10 anos como secretário de segurança pública no estado do Rio de Janeiro, uma região conflagrada pela atuação das facções criminosas, tráfico de drogas e armas, o gaúcho José Mariano Beltrame, embora enfrente uma situação de muita dificuldade para combater a criminalidade no estado carioca, através de sua atuação tem obtido alguns resultados importantes e que podem ser copiados para realidade um pouco diferente, como a do Rio Grande do Sul, que vive uma crescente da violência nos últimos anos. 

 

Principal palestrante do 1º Congresso de Prevenção a Violência, realizado em Passo Fundo, Beltrame foi o palestrante do primeiro dia do evento. Com posições firmes com relação a assuntos como menores infratores, presídios, atuação das polícias e proteção das fronteiras, concedeu entrevista exclusiva ao repórter Lucas Cidade na manhã de quinta-feira (28). Segundo ele, a segurança pública é reflexo dos seus governos. “Normalmente se o governo está estruturado, a segurança também atinge um nível que podemos considerar satisfatório. Seja aqui em Passo Fundo, em Porto Alegre ou Rio de Janeiro”, disse.

 

O secretário afirmou que segurança pública não pode ser simplesmente resumida a atuação da polícia. Para ele, tem que ser algo que envolve toda a sociedade. Disse que a polícia faz sua parte, com deficiências e carências históricas. E questionou: os outros órgãos também fazem sua parte? Segundo ele, tanto a polícia gaúcha, quanto a polícia carioca, não são tratadas como demais órgãos que compõe o estado, município e o país. “Saúde e educação tem verba da União. Segurança não tem. E isso é um problema grave. Precisamos capacitar os policiais, qualificá-los e pagar melhor. O salário do policial é vergonhoso. Esse peso da insegurança não pode ser colocado somente para a polícia. Outras instituições também são tão responsáveis quanto”, registrou.

 

Citou que não tem vergonha em falar, quando é questionado sobre a segurança pública no Rio de Janeiro, que “estamos enxugando gelo”. “Com essa questão toda de legislação, de regime de progressão de pena, audiências de custódia, são poucas as ações que se tornam eficazes”, falou. O secretário diz que a sociedade tem que tomar a frente, decidir e avançar com propostas para minimizar essa situação. “As coisas só tendem a piorar”, alertou.

 

Menores são escudo para criminosos

Falando sobre os menores que vivem no mundo da criminalidade, Beltrame disse que temos uma Lei de primeiro mundo, mas que na verdade não somos uma sociedade totalmente desenvolvida. “Não adianta a polícia pegar e conduzir esse menor para a delegacia. Ele é infrator, então façamos isso. Agora temos que pensar o que é feito dele depois. Para onde vai? Como é tratado? Onde está o pai e a mãe? Porque está no mundo do crime? Eles matam, roubam, e são impunes. No Rio, encaminhamos somente no ano passado 10 mil jovens para delegacia. É um número assombroso que não temos como esconder”, ponderou.  Beltrame afirmou que “o jovem hoje é escudo do criminoso. Aliado ao uso da motocicleta formam uma arma poderosa para o crime”. Para ele, a questão do menor não é de polícia. Vem de família, de condições de vida, de estudo e trabalho. Ele defende ações práticas para mudar esse quadro, com a atuação do judiciário, Ministério Público, órgãos de proteção, assistência e educação.

 

Se atirar na polícia, vai receber de volta!

Analisando o caso onde Brigadianos mataram criminosos durante tiroteio em Porto Alegre, Beltrame citou que no Rio de Janeiro, a orientação é para uma ação forte contra esses bandidos. “Lá no Rio tenho uma seguinte lógica: se atirar na polícia vai receber de volta. Atirar na polícia não é simplesmente atingir o policial, mas é atingir toda a sociedade. Estão atirando no cidadão, no chefe de família que trabalha e paga imposto pra sustentar aquela patrulha ou aquela viatura que está ali. No Rio aprovamos uma Lei que pune com mais rigor, quem matar ou ferir policial. Sou da opinião de que quem comete um ato desses deve sofrer uma sanção exemplar.

 

Cadeias lotadas: melhor do que presos nas ruas

Qual seria a saída para as prisões superlotadas? Se no presídio tá ruim, e realmente está. Na rua não pode ficar. Isso o Estado vai ter que resolver. Temos que construir mais presídios. Essa história de que o presídio está superlotado e devemos deixar os bandidos não rua não serve. Isso é insustentável. Porque a pessoa vai praticar determinado crime e não vai para cadeia porque tá cheia. Essa lógica não podemos aceitar! Fico pasmo que não encontramos uma solução até agora. Trabalhei em Porto Alegre, em 1985, e naquele tempo o Presídio Central já era insustentável. Garanto que se voltar lá hoje a situação só piorou.

 

Confiança na Lava Jato

Policial Federal de carreira, José Mariano Beltrame se mostrou orgulhoso com a operação Lava Jato. Disse que a Polícia Federal está fazendo o seu trabalho. Defende que o país não pode perder essa oportunidade de virar essa página da corrupção. Segundo ele, essa é uma chaga que ataca em todos os setores. “O que eu espero que da sociedade, como um todo, depois de concluída a operação, não aceite mais passivamente esse tipo de comportamento criminoso que tanto nos prejudica”, acrescentou.

 

Exército nas fronteiras

“Precisamos ter políticas concretas de proteção. Sei que está na responsabilidade da Polícia Federal, que trabalha muito, soa sangue, mas enfrenta muitas dificuldades. Quem já teve lá como eu sabe. O Brasil não produz drogas e armas de grosso calibre e tudo vem dos países vizinhos. O Exército é uma boa alternativa. Teríamos que mudar a Constituição. O Exército brasileiro tem que procurar um objetivo para o século 21. Tem material humano e logística e poderia assumir essa responsabilidade. Que polícia no mundo tem condições de cobrir 16 mil km de fronteira seca e 9 mil km de fronteira marítima? É uma questão de segurança nacional e o Exército pode intervir”, opinou.

Sim ao desarmamento

O Secretário Beltrame se posicionou contrário a liberação das armas de fogo. Segundo ele, é importante estruturar as polícias para não precisar que o cidadão ande armado. “Eu pessoalmente sou contra. Tem incidência grande de policiais fora de serviço que são mortos por armas de fogo. As pessoas acham que por ter uma arma estão protegidas. Isso é uma ilusão. Vem um bandido, lhe coloca uma arma nas costas, lhe mata e rouba sua arma que será mais uma na rua. São raríssimos os casos onde a arma de um civil resolveu uma situação de crime. Eu sou contra a liberação”, afirmou.