Baixa qualidade na formação de médicos coloca atendimento à população em risco, diz especialista após resultados de exames de avaliação
A qualidade dos cursos de Medicina no Brasil voltou ao debate nacional após avaliações recentes apontarem desempenho insatisfatório em parte das instituições. O cenário chama atenção diante da rápida expansão da oferta desses cursos, inclusive em cidades do interior. A abertura de novas faculdades levanta preocupações sobre infraestrutura, qualidade do ensino, disponibilidade de laboratórios, hospitais de ensino e o preparo dos futuros profissionais da área da saúde. Para analisar o cenário da formação de novos médicos no país, a Rádio Uirapuru conversou com o cardiologista Luiz Sérgio Fragomeni.
Segundo o médico, os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica não surpreendem a classe médica, uma vez que os conselhos de medicina alertam há anos para os riscos da liberação desenfreada de novos cursos, especialmente em locais sem estrutura adequada. Fragomeni destaca que não há condições de formar médicos de qualidade nesse cenário. Ele avalia que a formação profissional já é complexa em qualquer área, mas na Medicina essa responsabilidade é ainda maior, pois exige não apenas conhecimento técnico, mas também preparo humano e ético.
O cardiologista aponta que muitos desses cursos com nota baixa na avaliação são caros e acabam atraindo estudantes que não conseguem ingressar em instituições mais conceituadas. No entanto, mesmo com alto custo, essas faculdades não conseguem oferecer uma formação adequada por falta de estrutura, professores qualificados e hospitais de ensino. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 351 cursos de Medicina em funcionamento. Para Fragomeni, não existe estrutura educacional capaz de formar tantos profissionais ao mesmo tempo. Ele lembra que aproximadamente um terço dos cursos avaliados obteve notas entre 1 e 2, em uma escala cuja pontuação máxima é 5, o que evidencia a fragilidade do ensino médico em parte do país.
O médico ressalta ainda que, mesmo com boa formação, um profissional pode cometer erros de diagnóstico. No entanto, o risco é muito maior quando o médico não possui base técnica sólida e preparo adequado. Ele observa que, atualmente, há casos em que profissionais realizam atendimentos sem exame físico adequado, solicitam diversos exames e, em alguns casos, demonstram dificuldade para interpretar os resultados, reflexo direto do despreparo na formação. Fragomeni conclui que o problema envolve tanto a formação inadequada dos estudantes quanto falhas na qualificação de quem está responsável pelo ensino, comprometendo diretamente a qualidade dos profissionais que chegam ao mercado de trabalho.