Artesanato como forma de reinserção social
É numa cela pequena, pra quatro apenados, que vinte e cinco presos dividem o espaço e a criatividade pra construir peças de madeira, papel e material emborrachado; eles também utilizam materiais reciclados como garrafas pets, espumas e retalhos de diversos materiais, trazidos principalmente pelas famílias nos dias de visita ou doados.
“É apertado bem apertado na verdade, daí a gente faz uma espécie de linha de produção, daí cada um faz uma parte e lá no final monta a peça e daí como não tem onde colocar a gente pendura no teto muitas vezes, também não podemos fazer muito já que não tem muito espaço pra guardar”, explica um dos presos.
Por isso feiras de artesanato são organizadas mensalmente pelo Conselho da Comunidade do Sistema Penitenciário de Passo Fundo, em parceria com outras entidades. “Uma das possibilidades que o Conselho procura é então buscar parcerias pra ser possível a questão educacional, a questão de trabalho, também de saúde. Realizamos há um mês por exemplo, uma oficina de empreendedorismo que foi realizada por meio do Projur Mulher da Universidade de Passo Fundo. Sobre as feiras que promovemos, também há parcerias nessas mostras de artesanato local juntamente com o setor municipal de artesanato no Parque da Gare, assim como outras entidades nos tem cedido espaços como o Lions Clube, o Bourbon Shopping, onde as peças são vendidas”, explica o presidente Vinícius Francisco Toazza.
Quando as feiras acabam e os barquinhos, bolas, origamis, bancos e caixas de lenha, por exemplo, são vendidos, os artesãos encarcerados comemoram, também por saberem que as pessoas se encantaram com as peças bem acabadas, feitas por eles, na simplicidade de uma cela, mas com muita dedicação, como desabafa um dos detentos: “o que a gente quer é que a sociedade nos veja de forma diferente. Nem todos que estão aqui não querem trabalhar, muitos querem, tem vontade. Isso é uma distração, a gente vai fazendo, quando vê passou o dia e ainda nos dá uma renda que ou a gente direciona pra família ou serve pra comprar mais material pra gente fazer artesanato”.
Essa iniciativa é incentivada pela 4ª Delegacia Penitenciária Regional pela direção do presídio, já que além de promover a ressocialização, promove uma mudança de comportamento durante a estada no presídio. “Aqui a gente tem aproximadamente 40 presos que se envolvem com a atividade e é muito importante esse trabalho prisional. A gente percebe uma mudança de comportamento do preso que se envolve com essas atividades, que é comprometido com alguma atividade dentro da cadeia, complemente o diretor do Presídio Regional Renato Garlet.
Carteirinha de Artesão
O que era feito muitas vezes apenas para distração ou para remissão de pena, já que a cada três dias de trabalho com artesanato se diminui um dia de condenação, agora virou profissão registrada. É que por meio do SINE os apenados receberam carteirinha de artesão para regulamentar a atividade e servir como uma alternativa de renda e trabalho, para depois que voltarem ao convívio social.
“A gente quer proporcionar o máximo de atividades pra quem está cumprindo a sua pena em privação de liberdade possa ter possibilidades e sair após o cumprimento da pena e buscar uma nova vida, um novo início né… a gente sabe que hoje é muito difícil a pessoa que cumpre uma pena sair e conseguir uma carta de trabalho. É um viés de possibilidade que ele mesmo possa sair e montar a sua micro empresa e poder ter sua atividade laboral”, acrescenta Vinícius. Por isso também uma oficina de empreendedorismo foi realizada pros apenados que já desenvolvem a atividade. “A oficina de empreendedorismo foi feita com uma galeria, foi muito importante já que apresenta possibilidades, é possível empreender mesmo que de forma pequena e iniciar um negócio”, finaliza.
Espaço permite instalação de empresa
Já no Instituto Penal onde cumprem pena presos do regime aberto e semi-aberto a possibilidade de reinserção social se concentra no artesanato em madeira. Os presos ocupam os dias em uma marcenaria fabricando peças variadas. “Esse trabalho ajuda a gente a esquecer um pouco da pena, distrai a cabeça e o tempo passa… a gente quando consegue um espaço pra trabalhar é uma maravilha, principalmente pra quem quer trabalhar e seguir nessa carreira depois. É uma grande oportunidade”, conta um dos detentos mais dedicados ao trabalho. Além do espaço da marcenaria há uma outra sala disponível dentro do Instituto.
A direção tenta há bastante tempo atrair uma empresa pra se instalar no espaço e utilizar mão de obra carcerária na produção do ramo em que atua. “Pode ser qualquer fábrica, só entrar em contato conosco que orientamos a parte burocrática, há também o benefício de isenção de impostos…dispomos de espaço e diversos trabalhadores aqui que não conseguem uma carta de trabalho, um emprego lá fora e automaticamente ficam ociosos, já que por enquanto nenhuma empresa manifestou interesse”, conclui o diretor do Instituto Penal, Luis Alves.