A falta de educação financeira é a principal causa do endividamento dos brasileiros
Em um país onde o crédito fácil é uma porta de entrada para o consumo, a linha tênue entre estar endividado e cair no abismo do superendividamento tem se tornado cada vez mais preocupante. Para discutir as causas, as consequências e os possíveis caminhos para sair dessa armadilha, o Programa Sem Segredo reuniu especialistas de diferentes áreas: o diretor da Escola de Ciências Jurídicas da UPF, Rogério Silva; a assessora de desenvolvimento do cooperativismo do Sicredi, Franciele Santos da Silveira; e a psicóloga clínica Lisiane Vieira. O consenso é unânime: a falta de educação financeira, aliada a fatores emocionais e sociais, criou uma crise silenciosa que afeta a saúde e a dignidade de milhões de brasileiros.
O abismo do superendividamento
O professor Rogério Silva, idealizados do Balcão do Consumidor da UPF, trouxe luz aos conceitos que muitas vezes são confundidos pela população. Segundo ele, enquanto o endividado é aquele que possui dívidas, mas ainda consegue honrar o mínimo existencial, o superendividado já perdeu essa capacidade. “O superendividado é aquela pessoa que o que ela recebe mensalmente já não consegue mais pagar os seus gastos e nem mesmo o mínimo existencial: remédio, aluguel, transporte e alimentação”, explicou Rogério, citando dados que apontam para mais de 50 milhões de pessoas nessa situação no Brasil. Ele destacou que a Lei 14.181/2021 foi uma atualização crucial no Código de Defesa do Consumidor para tentar lidar com essa realidade, mas alertou que a lei não prevê o “perdão” da dívida, e sim a renegociação. Um dos pontos mais preocupantes levantados pelo especialista é o ciclo perverso do crédito para negativados. “É uma armadilha. A pessoa que já está com o nome sujo busca um crédito com juros abusivos, que pode chegar a 400% ao ano no cartão de crédito, e com certeza vai cair no superendividamento”, afirmou, ressaltando que esse fenômeno é agravado pela baixa renda da população e pela necessidade de complementar salários.
A armadilha do consumo
Franciele Silveira, do Sicredi, trouxe a perspectiva da cooperativa e reforçou que a origem do problema muitas vezes está na falta de autoconhecimento financeiro. “As pessoas vão atrás do crédito para manter o padrão de vida, e não para o essencial. Falta uma análise honesta da vida financeira”, observou. Ela apresentou uma ferramenta prática e didática para o dia a dia: calcular o valor da própria hora de trabalho. “Se uma pessoa recebe R$ 2 mil por mês, sua hora vale cerca de R$ 10. Gastar R$ 100 em uma balada em poucos segundos equivale a dez horas de trabalho jogadas fora. É preciso se indignar com o que se faz com o dinheiro”, exemplificou.
Outro ponto de atenção destacado por Rogério e endossado por Franciele é a perda do contato físico com o dinheiro. Com o Pix, o cartão de crédito e as compras por aplicativos, a noção de gasto se perde. “Quando você perde o contato físico com o dinheiro, fica muito mais fácil gastar. Antigamente, as pessoas poupavam; hoje, o crédito irresponsável dá a ilusão de que não é preciso esperar”, comparou Rogério. Franciele complementou com uma dica prática: “Saque o valor que você pode gastar na semana. Quando o dinheiro acaba na carteira, acabou. E anote tudo, absolutamente todos os gastos. O recurso está na ponta dos dedos, no celular.”
A origem emocional do descontrole
A psicóloga Lisiane Vieira fez a ligação crucial entre o comportamento financeiro e a saúde mental. Para ela, a relação com o dinheiro começa na infância, observando os pais, e se não for trabalhada de forma lúdica e educativa, pode se tornar um fator de adoecimento. “A compra muitas vezes é usada para dar conta de questões emocionais, fragilidades. É um alívio imediato, mas que se torna um ciclo de ansiedade e culpa”, explicou Lisiane. Ela revelou que em seu consultório, muitos pacientes que buscam ajuda por ansiedade ou depressão, ao aprofundar a investigação, descobrem que a raiz do problema está no caos financeiro.
A psicóloga também abordou a influência das redes sociais, que criam um padrão inatingível de consumo e normalizam o endividamento. “Há uma romantização do caos financeiro. Memes e posts tratam a dívida com naturalidade, incentivando pequenos prazeres imediatos. É preciso trazer para a consciência: por que estou fazendo isso? O que esse caos fala sobre mim?”, questionou.
Consequências que vão além do bolso
Os dados apresentados por Franciele durante o programa são alarmantes e escancaram a gravidade do problema. “Oito em cada dez pessoas se acidentam por causa do endividamento. Pessoas endividadas têm mais chances de sofrer acidentes de trabalho, desenvolver insônia e transtornos de ansiedade”, revelou a assessora, citando índices da Estratégia Nacional de Educação Financeira.
Rogério Silva completou, afirmando que o superendividamento já deve ser tratado como uma questão de saúde pública. “É um problema social. A pessoa que está nessa situação precisa de uma rede de apoio multidisciplinar: assistente social, psicólogo, economista e advogado. Não adianta tratar só a dívida ou só a emoção, é preciso um olhar integral”, defendeu.
A falta de políticas públicas e a solução multidisciplinar
Os três especialistas foram enfáticos ao apontar a falta de educação financeira nas escolas como um dos principais gargalos para a prevenção. Rogério lembrou que o Código de Defesa do Consumidor, há 35 anos, já prevê a educação para o consumo como um direito básico, mas que praticamente nada foi implantado de forma estruturada. “Não pode ser uma palestra pontual. É preciso um plano nacional, com transdisciplinaridade e preparo dos professores. É uma política pública urgente”, defendeu. Nesse sentido, Franciele destacou as iniciativas do Sicredi, como o programa “Finanças na Mochila”, que leva educação financeira às escolas de forma transversal. “Mas é preciso que isso seja uma agenda de todos”, completou.
Rogério também falou sobre o trabalho do Balcão do Consumidor da UPF, que completa 20 anos e acaba de firmar convênios com a Secretaria de Justiça e a Defensoria Pública para criar um núcleo de superendividamento. No entanto, ele lamentou a falta de flexibilidade dos fornecedores nas renegociações extrajudiciais. “Muitas vezes, a negociação não avança e o caso vai parar no Judiciário, o que demora e desgasta ainda mais a pessoa. Precisamos de bom senso de ambas as partes.”
Como sair da armadilha?
Lisiane Vieira recomendou um olhar para dentro: “O dinheiro é do racional, mas a relação com ele é emocional. O que ele significa para você? É construção ou é para mostrar aos outros? Se você está sofrendo, procure um profissional para te ajudar emocionalmente.”
Franciele reforçou a regra de ouro do planejamento: “Pague você primeiro. Ao receber o salário, guarde 10% para você. Mesmo que seja pouco, comece. R$ 2 por dia viram R$ 60 por mês e, ao final de um ano, mais de R$ 700 guardados. É pouco? Quanto você tem guardado hoje?”
Rogério Silva deixou um recado sobre a coragem de pedir ajuda, citando o relato de uma ouvinte que quase tirou a própria vida devido às dívidas. “É um caso dramático, mas de muita coragem. Precisamos de uma estrutura de atendimento, quase um SUS financeiro, para dar conta dessas pessoas. A informação qualificada nunca é demais, e o diálogo precisa ser repetitivo para que a mensagem seja absorvida.”