A esperança que vem de um transplante
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O momento de dor ocasionado pela perda de um ente querido,
que teve a vida interrompida, seja por um acidente ou por uma doença, pode
significar a chance de um recomeço para quem vive a angústia de esperar a
doação de um órgão. Diariamente equipes de profissionais da área médica
se empenham em buscar uma forma de tornar essa decisão, que parte inicialmente
da vontade da pessoa falecida e depois da família em consentir com a doação,
menos dolorosa possível.
Seja o falecimento de uma criança, adolescente, jovem
ou de um adulto, quando há condições de propor o transplante de órgãos que podem
renovar a esperança de vida de outra pessoa, as equipes se mobilizam para
preparadas para essa difícil tarefa, que inicia com uma abordagem de
assistentes sociais aos familiares, passando por explicações sobre o
procedimento, orientações e, enfim a operação.
A Uirapuru entrevistou nessa semana o médico Dr. Paulo Reichert, Chefe da
Equipe de Transplante Hepático do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP),
referência no Brasil. Na oportunidade, o profissional ainda estava na porta do
centro cirúrgico onde há poucos minutos havia encerrado uma cirurgia de
transplante de fígado. O doador era um adolescente, na faixa dos 15 anos, que
doou o fígado para um adulto, que sofria de cirrose e Hepatite B e que viu
nesse gesto, consentido e corajoso da família, a oportunidade de sobreviver.
“O convencimento da família é ainda mais difícil quando se trata de uma criança
ou adolescente. Nestes casos o índice de negativa é mais alto”, revelou o
médico. Diz que a equipe ficou satisfeita e realizada com a decisão da família.
“Esse gesto beneficiou um pai de família, que passou pelo transplante e, se
tudo continuar dando certo como deu até agora, poderá levar sua vida com mais
qualidade por mais alguns anos”, destacou.
Segundo Reichert a estatística demonstra que a Região Norte do RS apresenta um
baixo índice de doações de fígado. Nos casos de morte encefálica, 50% consente
com a operação. Diz que até agora foram realizados no Hospital São Vicente 5
transplantes, quando a previsão era entre 8 a 10 procedimentos, de acordo com o
histórico de anos anteriores.
Fila de espera
Muitas pessoas estão na fila a espera da doação de um fígado em Passo Fundo.
Jovens inclusive. “A procura é maior que a oferta. Esse é o maior desafio
da área transplantadora. As doações não conseguem suprir a quantidade de
pessoas que aguardam um órgão para continuar vivendo”, acrescentou.
Sobre o estado psicológico dos pacientes que esperam a doação, o especialista
faz uma analogia com pessoas que estão se preparando para uma grande cirurgia.
“Se nós formos imaginar que quem está com uma cirurgia cardíaca agendada já
sofre um grande estresse, mesmo tendo o horário e dia certo para ser operada,
pensamos em quem está na fila de espera por um órgão e não sabe se terá a
chance de recebê-lo.
A mortalidade na fila é a grande complicação nestes casos.
Em torno de 30% das pessoas morrem na esperança de ocorrer a operação e ela não
se concretiza. Elas esperam, sofrem, e acabam não sendo beneficiadas”,
explicou. O médico também citou situações onde o transplante acontece
tardiamente, quando a doença já está avançada e saúde do paciente muito grave.
Resultados animadores
Mesmo que o momento seja de baixa nas doações, Dr. Paulo Reichert também cita
motivos para comemorar. Segundo ele, os resultados dos transplantes hepáticos
são bem animadores. “Dos 17 últimos pacientes transplantados, perdemos 2 e os
outros 15 estão bem”, revelou. Ele considera que esse índice é muito bom e que
o transplante habitualmente dá certo. “Isso mostra que vale a pena o sacrifício
das famílias, das que doam e das que tem alguém esperando um órgão. Vale o
esforço das equipes de profissionais na luta por salvar vidas, e por fim, vale
cada centavo do dinheiro publico que é investido, resultado dos impostos que
todos nós pagamos”, disse acrescentando que as pessoas transplantadas têm uma
vida completamente diferente daquela que tinham antes da operação.
Sobre a opção por doar os órgãos, o especialista diz que é preciso que a
sociedade evolua bastante ainda. A esperança é que a questão educacional e
cultural seja mais aprofundada e faça com que as próximas gerações não
encontrem tantas dificuldades quanto agora, diminuindo significativamente o
índice de 50% de negativa da doação.
Crianças na fila
Por fim, o doutor citou que no caso específico que acabara de realizar o
procedimento, o fígado de um adolescente foi repassado a um adulto por questões
de compatibilidade. Explicou que o doador tinha o peso de um adulto leve e o
fígado era muito grande para ser transplantado em uma criança, mas que na
maioria dos casos, a idade é levada em consideração na hora de se decidir quem
será o receptor do órgão. “O Brasil tem uma característica de que a pontuação
de uma criança que está na fila de espera é multiplicada por 3 em relação aos
adultos, justamente para evitar ao máximo a mortalidade”, revelou.
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