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Internacional

Conflito escancara crise de legitimidade, poder e direito internacional, aponta doutor em Relações Internacionais 

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

A crise política e econômica da Venezuela voltou ao centro do debate internacional diante das tensões com os Estados Unidos, que envolvem sanções econômicas, questionamentos sobre a legitimidade do governo de Nicolás Maduro e disputas em torno do direito internacional. O embate expõe divergências entre a soberania dos Estados, a legalidade das ações externas e os impactos diretos sobre a população venezuelana. Esse cenário foi analisado pelo economista Igor Lucena, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa, durante entrevista à Rádio Uirapuru, na qual avaliou os desdobramentos políticos, jurídicos e geopolíticos do conflito.

Na avaliação de Igor Lucena, a ação dos Estados Unidos contra a Venezuela, apesar de considerada ilegal do ponto de vista do direito internacional, ocorre em um contexto no qual Nicolás Maduro não seria um líder legitimamente eleito. Segundo ele, as eleições no país teriam sido fraudadas, com indícios públicos de divergências entre os dados divulgados pela comissão eleitoral e os votos efetivamente registrados, o que comprometeria a legitimidade do governo venezuelano.

O economista afirmou que, há mais de 20 anos, o regime político da Venezuela concentra o controle dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, mantendo a população em condições econômicas precárias, com salário mínimo estimado em cerca de dois dólares. De acordo com Lucena, a maior parte da produção de petróleo do país é direcionada a nações como Rússia, China e Cuba, enquanto os recursos financeiros permanecem concentrados nas elites, inviabilizando, na prática, a autodeterminação do povo venezuelano prevista no direito internacional.

Ainda conforme a análise apresentada, a retirada de Nicolás Maduro do poder poderia abrir espaço para investimentos internacionais e para uma transição política liderada, inicialmente, pela vice-presidente Delcy Rodrigues, com a possibilidade de novas eleições. Na visão de Igor Lucena, esse processo poderia permitir que um governo com respaldo popular assumisse o comando do país e viabilizasse investimentos externos na maior reserva de petróleo do mundo, refletindo diretamente na melhoria da renda da população. Ele comparou a realidade venezuelana com países vizinhos, citando que o salário mínimo no Brasil gira em torno de 260 dólares, enquanto no Uruguai alcança aproximadamente 590 dólares.

O especialista também avaliou que as organizações internacionais falharam ao longo das últimas duas décadas em solucionar a crise venezuelana, servindo, segundo sua análise, como um escudo institucional para a manutenção do regime. Ele afirmou ainda que o país teria se tornado base para a atuação de grupos como Hamas e Hezbollah, além de ser utilizado para atividades de espionagem envolvendo a Rússia, o que amplia as contradições do cenário internacional.

Por fim, Igor Lucena destacou que, diante desse contexto, as disputas geopolíticas acabam sendo definidas pelos interesses dos países mais fortes. Para ele, o momento atual pode representar, após décadas, uma oportunidade de retomada do foco nos interesses da população venezuelana, ainda que o processo esteja marcado por conflitos jurídicos e políticos no cenário internacional.