Uirapuru Ecologia: economia circular é alternativa viável à lógica do descarte, apontam especialistas
Com os impactos ambientais cada vez mais visíveis no cotidiano das cidades, o debate sobre modelos econômicos sustentáveis tem ganhado relevância. A economia circular surge como uma proposta para repensar a forma como os recursos são extraídos, transformados, consumidos e descartados. Diferente do modelo linear tradicional, que segue a lógica de produzir, usar e jogar fora, a economia circular busca manter materiais e produtos em circulação pelo maior tempo possível, promovendo reaproveitamento, reciclagem e redução de resíduos.
O tema foi abordado no programa Uirapuru Ecologia, apresentado por Luiz Paulo Fragomeni, com a participação de Márcia Capellari, presidente executiva do Instituto Aliança Empresarial e professora da Atitus Educação, e Bárbara Fritzen, secretária de Inovação de Passo Fundo. As convidadas discutiram práticas, desafios e oportunidades ligadas ao tema, com foco na realidade local e em experiências já em andamento.
Márcia Capellari explicou que a economia circular se posiciona como alternativa à economia linear, modelo em que produtos são fabricados, utilizados e descartados. Segundo ela, o descarte direto eleva a pressão sobre aterros e já se reflete em enchentes e ondas de calor. A convidada citou a engenharia reversa como um dos pilares da nova lógica produtiva e mencionou o caso da rede Renner, que recolhe itens não vendidos ou com defeito, reprocessa as peças e as devolve ao mercado.
Entre as iniciativas locais, Capellari detalhou o programa Amplitude Moda Circular, criado pelo Instituto Aliança Empresarial. O projeto recolhe resíduos têxteis e PET de empresas associadas, transforma o material em novas fibras e repassa o insumo a grupos de moradoras assistidas pela Central Única das Favelas e a papeleiras da cooperativa Bom Jesus. As peças produzidas retornam às empresas, gerando renda para as famílias envolvidas. Ao relatar a fala de Dona Mara, liderança da cooperativa, Capellari reproduziu: “O que é lixo para você é dinheiro, é comida na mesa e educação para as crianças aqui do bairro”.
A presidente do Instituto Aliança Empresarial acrescentou que o Brasil recicla menos de cinco por cento dos resíduos que produz. De acordo com estimativas usadas na entrevista, o aproveitamento dos noventa e cinco por cento restantes poderia representar R$ 14 bilhões em receita e a criação de cerca de 240 mil empregos.
Bárbara Fritzen ampliou o debate ao lembrar que a economia circular inclui todas as etapas, da extração da matéria‑prima ao destino final dos rejeitos. A secretária afirmou que empresas, poder público e consumidores dividem a responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos. “Nós enquanto cidadãos também precisamos entender parte desse processo”, disse. Ela citou o programa brasileiro de logística reversa de embalagens de agroquímicos, em operação desde 2002, e o recolhimento de latas de alumínio como exemplos de ciclos fechados já consolidados no país.
A separação doméstica de resíduos gerou questionamentos de ouvintes sobre a mistura de materiais durante a coleta. Capellari e Fritzen reforçaram a necessidade da separação entre lixo orgânico e seco. Fritzen reconheceu falhas na comunicação municipal sobre horários e rotas da coleta seletiva, mas destacou que os resíduos são triados em esteiras antes do envio às cooperativas.
Ao final, Capellari lançou um convite aos ouvintes: abrir o próprio saco de lixo, verificar o conteúdo e observar como os materiais estão dispostos. A ação simples, afirmou, é o primeiro passo para reduzir o envio de resíduos a aterros e inserir famílias em cadeias produtivas de reciclagem.