Dia da Abolição da Escravatura: 137 anos depois, negros ainda enfrentam desigualdades — “Somos maioria nas prisões e minoria nas universidades,” afirma ativista
No dia em que o Brasil marca os 137 anos da assinatura da Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no país, a Rádio Uirapuru conversou com Ipácio Carolino, um dos representantes do Movimento Negro em Passo Fundo. A data, segundo ele, é um ponto importante da história, mas está longe de representar uma reparação completa às populações negras.
Carolino destacou que o período de escravização no Brasil durou 388 anos, entre 1550 e 1888, e que os impactos desse sistema ainda são sentidos. “Esses 137 anos da Lei Áurea não são tempo suficiente para apagar as marcas deixadas na população preta, na população negra, escravizada no Brasil”, afirmou.
Ele ressaltou que o racismo se manifesta de diferentes formas na sociedade brasileira. “A gente é maioria numericamente nesse país, entre pretos e pardos, mas é minoria nos espaços da dignidade, no mercado de trabalho, no acesso à educação.” Para ele, essa desigualdade estrutural é reflexo de um “projeto de poder, de poder econômico, de poder político” que sustentou a escravidão e ainda molda a realidade social brasileira.
Carolino defendeu que a superação dessas desigualdades passa necessariamente por políticas públicas e educação. “Estamos muito longe de atingirmos o patamar de igualdade social. E isso só vai se conseguir através da educação e da punição dos crimes de racismo”, afirmou.
Segundo o entrevistado, o racismo opera tanto de forma explícita quanto velada. Ele se manifesta, por exemplo, quando uma pessoa negra é impedida de participar de um processo seletivo ou de disputar uma vaga de emprego com base na cor da pele. “O racismo se moderniza, mas ele não se extingue. A gente precisa trabalhar o tempo todo para eliminar esta marca perversa da história da humanidade.”
Carolino citou ainda dados sobre a desigualdade racial no Brasil. Ele lembrou que pessoas negras são maioria no sistema carcerário, nas periferias das grandes cidades e minoria nas universidades e nos cargos de comando. “Quantos professores negros você conhece? Quantos médicos, médicas pretos e pretas você conhece? Quantos CEOs de empresa negros você conhece? Você já se perguntou o porquê dessa diferença?”
Sobre a Lei Áurea, ele disse que a abolição foi incompleta. “Essa abolição foi meio abolição, porque ela não foi acompanhada de políticas de reparação para o povo preto. No dia seguinte, 14 de maio, fomos jogados para a margem da sociedade. Sem casa, sem trabalho digno, sem renda.”
Ele defendeu que políticas públicas são necessárias, mas não suficientes. “É preciso pôr em prática. É preciso decisão política, é preciso pôr a mão na consciência e atuar para minimizar os efeitos da perversidade que foi a escravidão no Brasil.”