Os pequenos passos da recuperação de uma heroína
A tarde de 17 de abril jamais será esquecida para uma família do bairro Jerônimo Coelho em Passo Fundo. A data é marcada por um incêndio que destruiu completamente o terceiro andar de um prédio na Rua Joaquim Nabuco, mas representa também o renascimento para Daiane Cristina de Lima, 36 anos.
Daiane é mãe de três filhos. Um menino de 5 anos, um adolescente de 14 e uma menina de 16 e trabalhava como caixa e vendedora em uma loja de confecções infantis no Passo Fundo Shopping.
Na tarde do incêndio, estava com o filho João Vitor de 5 anos de idade, no apartamento onde residia quando as chamas iniciaram.
A mulher que hoje se recupera em casa, de graves queimaduras nas mãos, braços e rosto e da intoxicação pela fumaça, conta que tinha como rotina acordar cedo e levar o menino mais novo para a escola, realizar suas atividades, preparar e servir o almoço e depois como de costume, dormia com João Vitor que sempre acordava muito cedo. Depois ia para o trabalho onde desempenhava suas funções no turno da tarde e noite.
Na fatídica tarde de 17 de abril não foi diferente, porém João Vitor acordou antes e foi para a sala assistir televisão. Quando acordou, Daiane Cristina de Lima sentiu um forte cheiro de queimado e quando percebeu, a fumaça já tomava conta do seu quarto que fica nos fundos do apartamento onde morava. “Já estava pegando fogo até a metade do corredor. Na hora o que eu lembrei foi dele” disse a mãe se referindo ao menino.
Sem pensar em mais nada além do filho que estava no primeiro cômodo, Daiana andou em meio ao fogo, procurando pela criança. Neste momento as chamas já estavam intensas e tomavam conta do apartamento no último andar do prédio. Com dificuldades para enxergar e respirar e sentindo mãos, braços e cabelos queimando, Daiana conseguiu chegar a sala e encontrou o menino a poucos passos da porta principal da residência. “Eu não pensei em nada, só procurei por ele”, disse Daiana se referindo ao menino.
Juracema de Lima, mãe de Daiana que mora no andar de baixo, conta que ouvia os gritos da filha e quando abriu a porta do seu apartamento avistou chamas muito altas no corredor e a filha descendo com o menino nos braços enrolado em um cobertor. “Eu ouvi quando ela começou a gritar na escada. Quando olhei, vi ela com o cabelo todo queimado. Das mãos parecia que estavam caindo pedaços” disse a mãe.
Daiana chegou ao térreo bastante ferida mas havia cumprido com o maior desafio que o destino lhe havia reservado até então: salvar o pequeno filho.
O socorro
Em poucos minutos um grande aparato de socorro e combate a incêndios foi deslocado para o endereço onde fica localizado o prédio. Três caminhões de combate a incêndio, um caminhão com escada magirus especialmente desenvolvido para incêndios em prédios, além de ambulâncias do Samu, Bombeiros e de empresas privadas foram acionadas e estiveram no local.
Daiana conta que após sair do prédio, lembra apenas que gritava muito e que em minutos estava sendo atendida pelos socorristas do Corpo de Bombeiros.
O atendimento pré hospitalar era só o começo da história que colocou Daiana no papel de uma heroína que não mediu esforços para salvar a vida do filho de apenas 5 anos que não conseguiria sair sozinho do local.
No hospital, Daiana foi internada na Unidade de Terapia Intensiva onde permaneceu por 31 dias, sendo que durante 27 dias permaneceu sedada e sem apresentar evolução em seu estado de saúde.
A mãe de Daiana conta que foi muito difícil o período em que ela permaneceu internada. “Vinte cinco dias ouvindo dos médicos que o estado dela era gravíssimo. Depois de 20 dias começou a dar febre piorando a situação”.
Minha mãe morreu?
Um dos momentos mais marcantes para a família foi quando João Vitor perguntou se a mãe havia morrido. “Tiveram que levar ele até o hospital porque ele perguntava se eu tinha morrido”, disse a mãe.
Daiana conta que o menino ainda está traumatizado. “Ele sente muito por conta do meu cabelo que queimou todo. Em uma visita ele disse que só ia me ver se eu tivesse cabelo, então arrumaram uma peruca para eu usar durante a visita”.
Daiana conta que quando estava em casa usando sonda e se recuperando da traqueostomia o menino não entrava no quarto. “Quando eu tirei a sonda foi a primeira vez que ele me deu um beijo e um abraço”, contou a mãe com a voz embargada e lágrimas no olhos.
O milagre
Daiana diz que sente que foi salva pela mão de Deus. “A fase mais difícil eu não vi porque estava sedada, mas pelo que me contam se não fosse por Deus eu teria morrido” contou.
Agradecimentos
Daiana contou que todas as manifestações foram importantes para sua recuperação. “Queria agradecer pelas orações e pelo carinho que ainda são muito importantes para minha recuperação”.
Na época do incêndio, amigos de Daiana criaram uma vaquinha na internet para arrecadar dinheiro e auxiliar no tratamento e reconstrução do local onde residia.
Juracema de Lima conta que muita gente ajudou com roupas, móveis e dinheiro. “Precisamos agradecer a toda população de Passo Fundo principalmente pelas orações e a Rádio Uirapuru que divulgou e ajudou muito”.
A mãe de Daiana ressalta a eficiência do Corpo de Bombeiros que evitou que o fogo tomasse conta do prédio todo. “Só temos a agradecer. Vieram rápido e foram muito profissionais. Fiquei 15 dias no escuro, só com luz de velas, mas felizmente o fogo não chegou aqui” ressaltou.
Daiana contou ainda que o atendimento no hospital São Vicente de Paulo também foi muito bom. “O atendimento foi maravilhoso por parte de todos” contou.
O tratamento e a nova fase da vida
O atendimento médico e os medicamentos estão atualmente sendo custeados pelo SUS, porém a família precisou arcar com o custo de alguns itens de maior urgência.
Daiana permanecerá afastada do trabalho pelo menos até novembro.
O apartamento que foi destruído pelo fogo está sendo reformado, porém ao ser questionada se pretende voltar a morar no local a incerteza ainda paira na mente de Daiane. “Não sei se vou ter coragem de voltar a morar lá”, concluiu.