Abuso sexual de crianças e adolescentes: a dor de quem espera por justiça
As lágrimas teimam em cair dos olhos de, pelo menos, cinco famílias de um município da região de Soledade que há mais de um ano esperam por justiça. Essas famílias foram abaladas por um escândalo sexual envolvendo crianças e adolescentes que vinham sendo abusadas sexualmente por um homem, íntimo de algumas das famílias.
Os relatos são chocantes. Vidas marcadas pela dor, vergonha e sofrimento. Pelo menos uma das vítimas foi abusada dos nove aos 13 anos de idade.
O fato de conviver em um município de pouco mais de três mil habitantes, onde a maioria das pessoas se conhece, torna o fardo ainda mais pesado, inclusive por que o acusado de abusar das crianças, segue sua vida normalmente enquanto a justiça não define o seu futuro.
Pais e mães carregam consigo a culpa de não ter notado sinais dados pelos filhos mediante os abusos. Vítimas ainda convivem com o medo, ameaças veladas e tentativas de intimidação. Muitas delas ainda hoje precisam de tratamento psicológico que serve como bálsamo às feridas abertas pelo abuso.
Para todos que sofreram com o fato, um grito silencioso ecoa no peito, clamando por justiça. A morosidade do trâmite processual aumenta a dor e faz minguar as esperanças de vítimas e familiares.
No dia 09 de maio, uma audiência de instrução sobre o caso chegou a ser iniciada no Fórum de Soledade, tratando do caso em que cinco meninas, todas menores de idade foram abusadas sexualmente, porém foi suspensa em virtude de não ter sido garantida a modalidade especial de oitiva de algumas das vítimas, que havia sido solicitada pelo Ministério Público.
A reportagem da Uirapuru, conversou com vítimas e familiares que convivem a anos com essa dor. Uma adolescente abusada relatou que ainda sofre ameaças e se sente acuada com a presença do acusado. “Frequentemente sou ameaçada quando volto da escola. Quando ele (o acusado) me vê, ele começa a dirigir a caminhoneta mais devagar, tentando me fazer ficar com medo e relembrar do que aconteceu” contou a jovem vítima. A menina que foi ouvida pela reportagem da Uirapuru conta que sofreu muito na escola e que ainda tem medo do acusado. “Já que ele está solto, ele ainda pode fazer alguma coisa”.
A jovem diz que era ameaçada para não contar a ninguém sobre os abusos.
Eu não queria que os outros soubessem devido a exposição e também, por causa das ameaças que eu sofria. Eu me perguntava: se eu contar, o que os outros vão pensar de mim? Ele me fazia acreditar que eu era culpada pelos abusos e que eu merecia aquele sofrimento porque tinha algo de ruim. Devido as ameaças eu não revidava e só tentava seguir a vida. Foram quatro anos e meio de dor”.
O pai da vítima, conta que devido à morosidade do processo, o sofrimento não tem fim. “Quando marcaram para sair a audiência, esqueceram que teriam que ouvir as crianças de forma diferenciada conforme garante a lei”, contou o homem.
A Uirapuru teve conhecimento que uma nova audiência que tratará do caso será marcada. “Agora serão mais alguns meses de angústia, de sofrimento, de exposição das vítimas e famílias. São mais alguns meses que ele pode ficar encarando e colocando medo em todos envolvidos. Isso não tem explicação. Todos esperam uma sentença da justiça”, desabafou.
O acusado chegou a ter um pedido de prisão solicitado, porém, segundo o pai de uma das vítimas, o pedido foi negado porque a justiça entendeu que o mesmo não apresentava risco as pessoas.
Eu acho que ele continua oferecendo riscos tanto às vítimas como as outras crianças. Eu não acredito que ele tenha mudado” disse o pai.
A mãe de uma adolescente abusada relata o sofrimento de ter a filha assediada por uma pessoa próxima da família. “A minha dor maior é pelo fato de eu considerar o acusado parte da nossa família. Eu via ele como um protetor de nossas filhas, e em vez de proteger ele molestava”, relatou a mãe entre lágrimas.
A mulher conta ainda que a notícia do assédio caiu como uma bomba no pequeno município.
Hoje vivemos como se nós fossemos os culpados. Vivemos acuados. O bandido na rua e a pessoa honesta, justa e correta, fechada em casa”.
A mãe fez um apelo a justiça. “Eu peço ao judiciário que se coloque no lugar das vítimas. Que sinta o que nos estamos sentindo. Que veja quanto as famílias envolvidas estão sofrendo e que a justiça seja breve para ao menos amenizar o sofrimento de todos”, concluiu.