Quem sonha não tem limites
Um trabalho desafiador que começou discretamente em 2004 e foi ganhando destaque nacional. Quando a professora municipal Margarete Trombini foi chamada para dar aulas aos atletas com deficiência, achou que os treinos seriam muito pacatos para seu ritmo intenso. Não demorou muito para que ela descobrisse o quanto estava enganada, “trabalhar com deficiente físico abriu o mundo pra mim”.
Margarete faz parte de um projeto chamado Pé de Atleta que foi criado em 2008 pelo município com o objetivo de incentivar os alunos da rede a se inserirem no paradesporto. Desde o início do programa, muitos atletas se formaram e outros tantos ainda estão em formação. O atletismo e basquete são as duas modalidades com maior destaque em Passo Fundo. O projeto é desenvolvido em parceria com entidades. No dia 21 de março, a cidade sediará a Copa ACD de baquete em cadeira de rodas. Mas o grupo coordenado pela professora tem um objetivo maior: a Regional Rio-Sul das Paralimpíadas Nacionais, marcada para os dias 27, 28 e 29 de março.
Enquanto muitos alunos aproveitam o período de férias para descansar, Mateus segue treinando com muito foco para as próximas competições. “Vale a pena se sacrificar, treinar no sol. Vale tudo a pena, porque cada esforço que você faz vai ter resultado e essa é mensagem que eu deixo para as pessoas”, diz o atleta. Com 10 anos, Mateus dos Santos de Camargo perdeu o braço direito quando caiu numa centrífuga industrial. Seis anos depois, ele tem uma coleção de medalhas. Em 2014, pelo terceiro ano consecutivo, Mateus foi campeão nacional das Paralimpíadas Escolares na classe T46, nas categorias 100m, 400m e salto à distância.
A professora explica que no sistema paralímpico existem mais de 50 classes que diferenciam os tipos de deficiência. Segundo Margarete, preparar os atletas é sempre uma boa surpresa, porque eles se superam a cada dia. Para ela, cada um tem as suas habilidades e isso pode servir de exemplo para os colegas, “cada aluno, cada atleta, cada criança, cada pessoa com deficiência tem alguma coisa, algum resquício muscular que você pode usar. Que aquela pessoa não fique só com pesinho na aula de educação física, fazendo bíceps e tríceps, porque tem possibilidades de fazer outra coisa. Isso foi o que mais motivou e me tocou com o paradesporto neste tempo todo”.
Ismael Romero de Assunção está com 26 anos. Ele foi um dos primeiros alunos a se destacar no esporte. Em 2004, Ismael começou a fazer basquete, “eu vi um pessoal jogando e desenvolvi interesse. Não fazia nada, ficava só na cadeira de rodas, o dia inteiro. Eu me interessei e comecei a jogar também. Depois passei para o atletismo”. O atleta já foi contratado por times de Chapecó, Concórdia, e atualmente, representa Mogi das Cruzes, de São Paulo. Em 2008, Ismael foi convocado para participar do Parapan-Americano nos 100m. Acadêmico de educação física, ele recomenda a prática desportiva a todos, “não só para quem tem deficiência como para quem não. O esporte é um modo de vida saudável. Todo mundo deve seguir essa prática”.
Em 2010, pela primeira vez, Passo Fundo representou o estado nas Paralimpíadas Escolares. O grupo de três atletas conquistou nove medalhas de ouro. Desde então, todo ano, paratletas municipais seguem representando o Rio Grande do Sul nas Paralimpíadas Escolares e voltam pra casa só depois de subirem ao pódio. Para Mateus a deficiência nunca foi limite, “o limite é a pessoa que coloca, você impõe seu limite, não é a deficiência, nem nada. Se é seu sonho, vai alcançar”.