Editorial do jornal Troca- Troca: Uma reflexão sobre páscoa em tempos de guerra
Estamos na semana santa. Semana de tirarmos o pé do acelerador e de forma mais tranquila e reflexiva, analisarmos o real significado da Páscoa, que vai muito além do que simples enfeites com ovinhos de chocolate e coelhinhos. A sexta-feira santa, por exemplo, é um dia de luto para todos os cristãos. Nesse dia, o mundo cristão é convidado a fixar o olhar na imagem de Jesus Cristo crucificado, que morreu na cruz para cumprir a profecia de salvar o mundo e os homens do pecado. Já o domingo de Páscoa é uma celebração para homenagear a ressurreição de Jesus Cristo. A palavra Páscoa vem do hebráico Pessach, que significa “passagem”. No Antigo Testamento essa passagem foi a libertação do povo israelita da escravidão no Egito. Portanto, a Páscoa era celebrada pelos judeus para comemorar a liberdade. Já no Novo Testamento, a data é a celebração da passagem da “morte para a vida”, através da ressurreição. Portanto, hoje ela é uma celebração à vida. E é aqui que a Páscoa bate de frente com os acontecimentos atuais.
Se a Páscoa celebra à vida, todos os cristãos devem ter em mente, portanto, que a guerra e conflitos que tiram vidas é inaceitável. Este é um tema bastante sensível, pois é justamente nestes momentos de conflitos que a Páscoa deixa de ser apenas um ritual litúrgico da Igreja e passa a discutir de fato a brutalidade que é a vida humana. A celebração de Páscoa é uma jornada onde devemos refletir sobre sair da escuridão e encontrar a luz. Essa é a visão litúrgica da data. Porém, essa liturgia deixa de ser apenas palavras ou desejos e passa a ser realidade, pois na atualidade essa metáfora religiosa passa a ter um sentido ainda maior, pois estamos acompanhando notícias de duas guerras terríveis e que estão ceifando vidas de inocentes: Rússia X Ucrânia e EUA-Israel X Irã. Sem contar os inúmeros conflitos regionais espalhados pelo globo terrestre.
Na tradição cristã, a Sexta-Feira Santa, por exemplo, seguindo os últimos momentos de Cristo, representa o abandono, a injustiça e o sacrifício. Pensemos nisso nesta data, já que os conflitos atuais nos apresentam a questão dos refugiados que deixam tudo para trás, sofrem com a morte de inocentes, além da dor provocada pela destruição das cidades e suas vidas. Já no dia seguinte, o Sábado de Aleluia, é solicitado um dia de silêncio. É o vazio da espera. Na guerra, esse é o tempo entre o ataque e a reconstrução. Representa a espera das famílias que aguardam o fim das hostilidades.
Por fim, vem o Domingo de Páscoa. Se a Sexta-Feira nos apresenta a morte, o Domingo Pascal nos mostra a esperança através da resistência. Celebrar a ressurreição na guerra, é afirmar que a violência não tem a última palavra. É o momento de fato do Pessach, a passagem de uma vida atingida pela guerra, para uma vida melhor com paz, esperança e solidariedade. Três elementos da Páscoa nos chamam atenção em tempos de guerra. O primeiro deles é o pão e o vinho. Se em tempos de paz ele é o rito de comunhão, na guerra significado é a escassez de alimentos. O segundo elemento é a Luz da vela. Trata-se de um símbolo espiritual, mas na guerra significa o desafio à escuridão dos abrigos. Por fim, temos a Ressurreição, que é uma promessa teológica, mas nos períodos de conflitos, nos mostra que deve haver vontade política e humana para reconstruir e se buscar a paz.
Por fim, a Páscoa nos ensina que a vida tem uma teimosia sagrada. Onde a guerra tenta cavar sepulturas, a esperança insiste em plantar sementes. Viver a Páscoa em tempos de guerra nos faz entender que a “Paixão de Cristo” acontece em diversas fronteiras e que a busca pela paz não é um desejo sazonal, mas um compromisso de remover pedras que muitas vezes fecham os túmulos da dignidade humana. A todos os leitores do Jornal do Troca, uma feliz e abençoada Páscoa.