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Empreendedorismo

Empreendedorismo feminino cresce, mas mulheres ainda enfrentam jornada dupla, preconceito e falta de apoio

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Dados do Sebrae de 2025 revelam um avanço significativo no empreendedorismo feminino no Brasil, que cresceu 33% na última década, com mais de 10 milhões de mulheres à frente de negócios. No entanto, por trás dos números, persistem desafios estruturais que vão da dupla jornada ao preconceito de gênero e raça. Essas questões foram o centro do debate do programa “Sem Segredo” na manhã deste sábado, véspera do Dia Internacional da Mulher. A conversa começou com dados que mostram um retrato da desigualdade. Aline Gross Souza, gestora de projetos do Sebrae Passo Fundo, apresentou um panorama do Rio Grande do Sul, que conta com 583 mil empreendedoras, representando 16% da força empreendedora do país e 34% à frente de pequenos negócios. “Quando a gente olha as pesquisas, tem alguns dados que ainda nos mostram que a gente precisa criar um ambiente melhor para as mulheres empreenderem”, alertou Aline. Ela destacou a disparidade de renda e horas trabalhadas. Enquanto os homens empreendedores dedicam mais de 40 horas semanais ao negócio, as mulheres trabalham, em média, 37 horas. “A gente pensa: ‘é claro, o homem trabalha mais’. Não é isso. É que hoje, quando a gente conversa com essas mulheres, elas trazem a jornada dupla que têm. São responsáveis pela maior parte das atividades domésticas e pelos filhos. Essa jornada dupla faz com que a mulher tenha um rendimento menor”, explicou. A pesquisa do Data Sebrae no estado também revelou um cenário alarmante de discriminação: 42% das entrevistadas já enfrentaram preconceito ao apresentar suas empresas, e 29% não conseguiram fechar negócio por serem mulheres.

Estratégias e resistência no dia a dia

A empreendedora Adriana da Leve, da Água Conectada, compartilhou sua trajetória na tecnologia, área predominantemente masculina. Com formação em Ciência da Computação, ela contou como uniu forças com outras startups e o apoio do PF Parque para desenvolver um protótipo que monitora o consumo de água, nascido de uma conta de R$ 6 mil que recebeu em casa. Adriana revelou uma estratégia inteligente para lidar com o preconceito no ambiente de negócios: “Eu desenvolvi bastante a sensibilidade. Consigo captar quando vou ter problemas por ser mulher. Aí, o que eu faço? Busco meu sócio para participar da negociação. Eu saio de cena e coloco ele na cena”. Para ela, a família foi a base, vindo de uma linhagem de mulheres empreendedoras que sempre a empurraram para a educação e a autoconfiança. “Minha tia dizia: ‘busca educação, não importa se é um título ou um certificado. O que importa é o conhecimento'”.

Danissiele Paz, funcionária pública do Banrisul, representa o empreendedorismo que nasce da paixão e da identidade. Ao lado da mãe e das duas irmãs, ela criou uma marca de acessórios, com forte viés afro, após o sucesso em uma feira do movimento negro. “A gente trabalha a autoestima da mulher, a ancestralidade. Quando a gente coloca um acessório afro, tu estás passando uma informação”, afirmou. Confrontada com a pergunta sobre as dificuldades adicionais para mulheres negras, Danissiele foi direta: “Só por ser mulher, já é mais difícil. Imagine para a mulher negra. A gente traz um produto com esse viés afro, e as coisas são mais lentas. As portas não se abrem tão facilmente. O esforço para conquistar é muito maior”.

Aline Gross corroborou a fala de Danissiele com dados da pesquisa estadual, que mostram a sub-representação: 84% das empreendedoras se declaram brancas, seguidas por 10% pardas e apenas 4% negras. “A questão racial entra como mais uma adversidade para empreender”, lamentou a gestora.

A força do coletivo e a liderança feminina

A conversa destacou a importância das redes de apoio. Segundo a pesquisa do Sebrae, 62% das mulheres tiveram ajuda da família para começar, mas 30% não tiveram apoio de ninguém. “A mulher não chega sozinha em lugar nenhum”, reforçou Danissiele, citando o apoio da família e de grupos como a Associação Cultural de Mulheres Negras.

Adriana complementou, emocionada, ao falar do poder do coletivo: “Tenho grupos de amigas que dizem: ‘estamos orando por ti’. Para mim, isso foi fundamental”. Ela também destacou a necessidade de políticas públicas, como creches em tempo integral, e a importância de editais de fomento que pontuam a participação de mulheres e negros para equilibrar as oportunidades.

O exemplo de liderança veio da reitora da Universidade de Passo Fundo (UPF), Bernadete Dalmolin, primeira mulher eleita e reeleita para o cargo em 57 anos da instituição. Ela falou sobre o simbolismo de ocupar espaços de decisão historicamente masculinos. “Nós temos uma contribuição sem igual nos espaços. Não é uma questão de ser politicamente correto. Temos inúmeras evidências de que só construiremos um mundo melhor se tivermos igualdade de gênero. Nós nos completamos nas diferenças”, afirmou.

Bernadete fez um apelo para que os homens sejam aliados nessa luta, lembrando de uma pergunta que sempre faz: “Nos momentos decisórios da vida da cidade e das empresas, quantas mulheres foram convidadas a participar?”. Para ela, derrubar barreiras é um gesto de inspiração para que outras mulheres e meninas saibam que podem e devem ocupar todos os lugares.

Dicas para empreender e comunicar

  • Aline (Sebrae): “O primeiro passo é acreditar na ideia e buscar o Sebrae para fazer um planejamento. Um plano de negócios bem estruturado é fundamental. E, na comunicação, é essencial ter consistência, saber quem é sua persona e estar bem posicionada no Google Meu Negócio e nas redes sociais.”
  • Danissiele: “Não importa o tamanho do seu negócio. Acredite no seu sonho. Comece pelo MEI, se organize financeiramente separando as contas da empresa das pessoais, e busque apoio, porque nós podemos ocupar todos os lugares.”
  • Adriana: “A mulher tem poder. Ela precisa olhar no espelho e buscar dentro dela o tamanho do seu valor. A mulher não tem útero por acaso; é porque ela consegue gestar vidas, negócios e um novo amanhã. Vá até o seu público, não espere que ele venha até você. E, principalmente, invista em autoconhecimento para saber se posicionar e estabelecer limites.”