Uirapuru Ecologia: Instituto Kaingáng amplia atuação para garantir acesso a políticas públicas e preservar identidade
O programa Uirapuru Ecologia, da Rádio Uirapuru, dedicou uma edição ao debate sobre o papel do Instituto Kaingáng na promoção da sustentabilidade e na defesa dos direitos indígenas. O tema abordou a relação entre economia sustentável, preservação ambiental e fortalecimento cultural, destacando os desafios enfrentados pelo povo Kaingáng diante da redução territorial e das transformações ambientais. Participaram do programa a educadora e presidente do Instituto, Andila Kaingáng, e a advogada e gestora da entidade, Susana Kaingáng, que apresentaram aspectos históricos, culturais e jurídicos da atuação da organização.
A educadora Andila Kaingáng relatou a criação do primeiro Ponto de Cultura Kaingáng em Coxilha como um marco para a valorização dos saberes tradicionais. Segundo ela, o espaço foi estruturado para fortalecer a cultura indígena por meio da atuação com professores, que exercem o papel de multiplicadores dentro das escolas. O Instituto desenvolve ações voltadas à formação de lideranças indígenas, jovens, mulheres e crianças, com foco na educação escolar indígena e na transmissão de conhecimentos entre gerações. Andila explicou que a iniciativa surgiu da necessidade de dar continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo de sua trajetória, inclusive após a aposentadoria da FUNAI, mantendo o compromisso com a organização comunitária.
Ela também destacou que a criação formal do Instituto, com representação jurídica e CNPJ, foi fundamental para garantir acesso a políticas públicas e participação em editais. A entidade atua em níveis municipal, estadual e nacional, promovendo oficinas, seminários, cursos de formação e eventos culturais. Conforme Andila, a escola indígena tem papel central no fortalecimento cultural e na preservação da identidade. Ela afirmou que a redução dos territórios impacta diretamente a sustentabilidade, a produção cultural e as práticas tradicionais, dificultando o acesso a recursos naturais essenciais para a manutenção da cultura e da economia indígena.
A advogada Susana Kaingáng contextualizou a abrangência territorial do povo Kaingáng, presente nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Ela informou que o povo é considerado o terceiro maior grupo indígena do país, com população estimada em cerca de 50 mil pessoas, concentrada principalmente no norte do Rio Grande do Sul. Susana explicou que a discussão sobre sustentabilidade está diretamente ligada à territorialidade, destacando que o conceito indígena de território tradicional vai além das áreas oficialmente demarcadas pelo Estado.
Susana também apresentou uma crítica à concepção estatal de território restrito, afirmando que o confinamento em áreas reduzidas compromete a cultura, a economia e a segurança alimentar das comunidades. Ela destacou que o processo de colonização resultou no desmatamento das florestas de Araucária e na expansão de monoculturas, o que reduziu recursos naturais essenciais. Segundo a advogada, a diminuição territorial e a degradação ambiental afetam a produção artesanal e agrícola, além de limitar o acesso a matérias-primas. Ela ainda mencionou que coletivos indígenas enfrentam dificuldades para acessar editais públicos devido a exigências burocráticas, reforçando a necessidade de políticas que considerem as especificidades das organizações tradicionais.